
  Quem me Dera!
  Robin Jones Gunn
  Srie Selena 3


    Selena guarda alguns desejos secretos no corao que ela gostaria de ver realizados. Entre eles, reencontrar seus amigos da Califrnia e rever um certo rapaz 
que aparece e desaparece de sua vida sem deixar pistas. Ah, se isso acontecesse seria bom demais...QUEM ME DERA! 
Selena estava contando os dias para a chegada do feriado de Pscoa. Poderia finalmente curtir uma semana de sol, praia, muita diverso, e reencontrar Cris Miller 
e outros amigos que havia conhecido na Inglaterra. Mas seus "problemas" acabam indo com ela, pois Tnia, sua irm mais velha decide acompanh-la na viagem e logo 
comea a namorar um dos rapazes que elas conhecem l. Agora, alm da inveja que sente da irm, Selena fica arrasada por ver que  a nica da turma que ainda no 
tem namorado.  Selena conseguir mudar seus sentimentos em relao  irm? Continuar sentindo-se inferior s amigas por no ter ainda um namorado? Ou tentar enxergar 
em tudo isso o carinho e o cuidado de Deus por ela?
      
      
      
      
      
      Ttulo original: Dont't You Wish
      Traduo de Myrian Talitha Lins
      Editora Betnia, 2000
      Digitalizado por deisemat
      Revisado por deisemat

      http://semeadoresdapalavra.queroumforum.com




   Quem Me Dera!
   Robin Jones Gunn
   Srie Selena 3
      
      
      
      
      Para Sandra Byrd e Christine Sugustian, colegas escritoras que tambm amam a Deus e que comigo formam o "cordo de trs dobras".
      
      
      
      
      
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      Captulo Um
      - Ah, vamos l, Brutus! Me ajuda a, companheiro! Sei que est aflito para chegar ao parque, mas agora tem de ficar paradinho!
      Selena ps a mo no focinho do seu co So Bernardo, que s queria saber de lamb-la, e afastou-o de si. Em seguida, ajustou a coleira em torno do pescoo 
peludo do animal e continuou conversando com ele.
      - E lembra bem do que eu disse. Tem que se comportar direitinho com Amy e o cachorrinho dela. Ela deve chegar j, j. No vai ficar babando em cima da poltrona 
do carro dela no, viu?
      Brutus encarou-a, com os olhos castanhos, midos, arfando pela expectativa do passeio.
      - E no precisa me olhar com esse ar de inocncia no, prosseguiu ela, sentando-se no cho e calando suas velhas botas de cowboy. Estou falando srio. O nico 
jeito de se arranjar um amigo  procurar ser amigo de algum. E sua misso hoje  essa. Fique bem bonzinho, 't legal?
      Estou falando isso para o Brutus ou para mim? pensou a garota consigo. Dias atrs, Amy perguntara a Selena se gostaria de ir passear com ela na praa das fontes, 
sbado de manh, e desde ento a garota ficara um pouco tensa. No estava sendo fcil para Selena fazer amizades em Portland. A nica pessoa com quem conseguira 
estabelecer um princpio de relacionamento fora sua colega Amy Degrassi; e no queria botar tudo a perder.
      - A campainha! exclamou. Vamos l, Brutus!
      E no foi preciso dizer mais nada para que o imenso co peludo sasse em disparada. Selena segurou firme a coleira do animal e abriu a porta. Amy, uma jovem 
de olhos castanhos, foi logo dando uma risada.
      - Puxa! Voc no estava brincando quando disse que ele era enorme.
      - Se voc achar melhor no lev-lo, eu o deixo em casa, disse Selena, segurando firme a coleira de Brutus para que ele, na nsia de sair, no derrubasse a 
amiga.
      - Ah, no. Ele iria ficar muito triste! replicou Amy.
      As duas se dirigiram para o carro dela, um Volvo 1986, que estava com a pintura bem descascada. No banco traseiro, estava um minsculo chihuahua, com as patinhas 
apoiadas na vidraa. Era Snoopy, o cozinho de Amy.
      - Puxa! exclamou Selena. Ele  pouco maior que um rato!  Amy, sei no! Ser que devemos mesmo deixar os dois juntos a? O Brutus  capaz de acabar com ele. 
Pode at devor-lo!
      - No, no! Eles vo se dar bem, disse a outra. Olhe aqui Snoopy, trouxe um amiguinho pra voc!
      Selena achou que a "miniatura" canina iria virar-se e procurar um lugar para se esconder, mas no. Ele se ps a ganir alegremente, batendo as patinhas na vidraa 
fechada. Brutus tambm firmou as patas no vidro e ficou a examinar o novo amigo. Em seguida, virou-se e olhou para Selena, dando-lhe um olhar diferente, que ela 
interpretou da seguinte maneira:
      "Vocs esto brincando comigo? Esperam que eu faa amizade com essa 'coisinha'?"
      Contudo ele deu um latido tranqilo. Amy abriu a porta de trs, e Brutus esperou que o outro chegasse para o canto e saltou para o banco.
      - No disse? comentou Amy. Eles vo ser bons amigos.
      Selena estava admirada; e ficou assim um bom tempo depois que a amiga arrancou, seguindo em direo  ponte de Burnside. Em dado momento, ela olhou para trs 
e viu os dois animais, to diferentes um do outro, farejando-se mutuamente e fazendo os gestos habituais de ces que esto travando amizade.
      - Eu nunca poderia imaginar que isso fosse acontecer, observou Selena, virando-se para a frente.
      Com esse movimento, uma mecha de seu cabelo longo e encaracolado ficou presa no encosto de cabea.
      - Ai! exclamou.
      - O que foi?
      - Meu cabelo ficou preso aqui.
      - Detesto quando isso acontece comigo, falou Amy, jogando parar trs seu cabelo castanho e ondulado. D vontade de cortar tudo. Queria ter um cabelo igual 
ao da Vicki, liso e reto.
      A maioria das garotas da escola gostaria de ter cabelo igual ao de Vicki, mas no apenas isso. Queriam ter o rosto, o corpo e a personalidade dela. Vicki era 
o tipo de garota que atraa os olhares de todo mundo, principalmente dos rapazes.
      - Voc tambm detesta ter cabelo ondulado? indagou Amy.
      - Detesto, respondeu Selena, puxando a mecha da pea metlica e deixando nela vrios fios.
      A verdade  que j desistira de querer ter cabelo liso. Se o vortava, ele ficava ainda mais anelado. Como o clima de Portland era mido, ele se tornara mais 
ondulado que antes. Usara diversos tipos de creme para relaxar, mas nenhum adiantara. Afinal decidira deix-lo do jeito que era: bem encaracolado e at meio desgrenhado
      - Acho que a Vicki est interessada no Ronny, comentou Amy. Ele te disse alguma coisa sobre ela?
      - No, mas tambm por que iria me dizer? Conversou muito pouco comigo a semana passada.
      - Por que ser que ele no falou com voc? indagou Amy, entrando em uma vaga, numa das ruas laterais, e correndo a mo pelo cinzeiro para pegar algumas moedas. 
Pensei que os dois estavam muito amigos.
      - Sei l, replicou Selena. Acho que somos amigos, sim. Olhe, tambm tenho dinheiro aqui, continuou ela, abrindo a mochila e pegando trs moedas de $0,25 centavos.
      No banco traseiro, os dois ces estavam latindo e ganindo ansiosos para sair.
      - O.k., o.k. Vocs vo sair j, j, disse Selena. E voc, Brutus comporte-se.
      Abriu a porta de trs devagar, ao mesmo tempo em que enrolava na mo a correia da coleira dele, para poder segur-lo com firmeza. Amy introduziu as moedas 
no "parqumetro", com Snoopy correndo em crculos ao redor dela.
      - Voc est animada para a viagem da semana que vem? indagou para Selena.
      - Claro. Estou ansiosa para que chegue o dia!
      Na verdade, a resposta que ela deu estava muito aqum do que sentia de fato. A garota estava to empolgada com o passeio, que nas duas noites anteriores custara 
a pegar no sono. Ficara pensando o tempo todo em seus amigos Cris Miller, Katie, Trcia, Ted e Douglas. A ltima vez que os vira fora trs meses atrs, quando tinham 
estado juntos na Inglaterra. Agora, no recesso de Pscoa, ela planejava viajar para a Califrnia e passar uma semana em companhia deles. Contudo respondeu a Amy 
num tom tranqilo, para no revelar sua profunda ligao com aqueles amigos.  que a outra poderia pensar que no tinha interesse em fazer amizade com as colegas 
de Portland.
      - Ah, eu tambm queria ir a algum lugar para me divertir, comentou Amy, colocando a ltima moeda no orifcio. Aqui vai ficar muito sem graa.
      - Brutus! gritou Selena.
      Ao que parecia, enquanto as duas conversavam, a pacincia do co se esgotara. Ele sara correndo pelo gramado, num forte galope, arrastando a garota consigo. 
Snoopy, que no queria ficar para trs, ps-se a latir desesperadamente e foi atrs dele, com seu passinho mido.
      Brutus seguiu em disparada pela praa e parou de repente perto da fonte de guas. Nessa praa, que  uma atrao turstica do centro de Portland, h vrios 
orifcios circulares na calada, do quais brotam esguichos. A gua sobe a uma altura de cerca de trs metros, no formato de um arco. Todas as fontes convergem para 
um ponto comum, onde os jatos de gua se unem. A manh estava at um pouco fria. Mesmo assim, algumas crianas estavam passando embaixo dos arcos, aproveitando os 
espaos abertos. Pouco depois o esguicho mudava de posio e todos ficavam ensopados.
      - Nem pense em fazer isso, Brutus, disse Selena para o co, puxando-o em direo  calada. Esperou que Amy e Snoopy se emparelhassem com ela e em seguida 
puseram-se a caminhar pela praa, como os outros presentes no local. As garotas pretendiam dar um passeio tranqilo naquela agradvel manh primaveril, mas acabaram 
descobrindo que isso seria simplesmente impossvel.
      Brutus se ps a correr, embora Selena tentasse segur-lo. Snoopy, no querendo ficar atrs, tambm partiu para uma corridinha. Contudo, antes que avanassem 
uns cem metros, o pobre cozinho parecia que ia ter um infarto. As pessoas que passavam fazendo cooper ou andando de bicicleta olhavam admiradas para a cena: um 
cachorro grandalho correndo desajeitado, seguido de um co pequenino de passinhos curtos.
      - Isso no est legal, no, disse Selena, dando um puxo em Brutus para det-lo e recuperar o flego. Talvez seja melhor carregar o Snoopy.
      - Devamos ter vindo de patins! comentou Amy. O Brutus poderia puxar a ns duas, sem o menor esforo. Vem c, Snoopy. Vou te carregar.
      - Coloque-o na minha mochila, sugeriu Selena. Segure aqui, disse, entregando a Amy a correia da coleira de Brutus.
      Selena pegou a mochila e abriu-a para colocar o cozinho dentro. Abaixou-se e pegou-o. Percebeu que o coraozinho dele estava batendo muito depressa.
      - No! No! Volte aqui! gritou Amy.
      Brutus arrancara a correia da mo dela e estava disparando em direo  fonte.
      - Pegue-o! gritou Selena, enfiando Snoopy na mochila rapidamente e ajustando as alas dela s costas.
      A seguir, saiu correndo e chegou junto de Amy, j perto da fonte. Brutus correra para o centro e estava bebendo a gua do cho, embora estivesse com as patas 
num ponto onde o terreno estava seco. Por alguma razo, a gua da fonte parar de jorrar.
      - Oh, que bom! exclamou Selena, recuperando o flego. Eles sempre fecham a gua assim?
      - Venha c, Brutus! disse Amy, batendo de leve na prpria perna e assobiando. Venha aqui, rapaz!
      Ela se virou para a amiga momentaneamente e explicou:
      - Eles fecham para mudar o formato do jato d'gua. A qualquer instante ela vai comear a jorrar de novo.
      - Venha c, Brutus! gritou Selena.
      Com receio de ficarem molhadas se a fonte recomeasse jorrar, as duas garotas ficaram afastadas, chamando o co, assobiando e batendo palmas. No adiantou. 
Brutus parecia estar gostando muito da aginha fresca que bebia, bem como da ateno toda que recebia delas. E continuou l plantado, bem no centro da fonte. De 
repente todos os orifcios de onde a gua esguichava comearam a borbulhar. 
      Shusssssh! Diversos jatos de gua esguicharam para o alto, quase jogando Brutus para cima. 
      - Olha s aquele So Bernardo! Que bobo! disse uma voz masculina atrs de Selena.
      Mas antes mesmo que ela se virasse para ver quem era que estava zombando de seu co, a mesma voz continuou:
      - Selena! Amy!
      A garota irou-se e viu Ronny, a cabea ligeiramente inclinada para um lado, o cabelo louro, liso e reto, partido no meio, pendendo lateralmente. Tinha um skate 
debaixo do brao e ao seu lado achava-se um rapaz que Selena no conhecia.
      - O que vocs duas esto fazendo aqui? continuou ele.
      - Tentando tirar meu cachorro da gua, replicou ela. Venha c, Brutus!
      Ronny e o outro rapaz tambm se puseram a gritar, chamando o co, para que ele sasse da gua. Contudo Brutus encontrara um ponto bom para ficar. No estava 
recebendo o jato direto da fonte, mas se achava embaixo de um "toldo" de gua, sob uma chuva de respingos. Selena abanou a cabea.
      - No adianta mesmo! resmungou, sem se dirigir a ningum em particular.
      Snoopy, que se encontrava dentro da mochila dela, comeou a ganir. 
      - Eh, agora voc tambm quer ir para l! disse a garota.
      - Que  que est a dentro? indagou Ronny, aproximando-se e levantando a aba da bolsa. Ei! exclamou ele surpreso, vendo Snoopy erguer a cabea e latir para 
ele. Venha ver, Dan!  um rato!
      -  meu cachorro! disse Amy.
      - Isso  um cachorro? perguntou Dan.
      - Venha c, Snoopy! falou Amy em tom carinhoso, tirando o animalzinho daquele "ninho". No ligue para esses caras no. Eles so muito maus!
      Os quatro haviam formado uma rodinha e estavam de costas para a fonte. Nesse instante, Brutus resolveu sair do seu "chuveiro" e aproximou-se deles. Antes que 
Selena tivesse tempo de avisar os colegas, o co se sacudiu fortemente, espirrando gua em todo mundo.
      - Brutus! gritou Selena, agarrando-o pela coleira e afastando dos amigos aquele "brutamontes" encharcado. Desculpe, gente!
      - Ah, que nada! replicou Ronny. Eu estava mesmo precisando de um banho!
      Em seguida, o olhar dele se encontrou com o de Selena, e o rapaz indagou:
      - Em que dias voc ir trabalhar nesta semana?
      - Hoje, tera-feira e quinta, explicou ela, olhando primeiro para Dan e em seguida para o amigo. Por que pergunta?
      - S queria saber.
      Brutus deu outra sacudida forte e Selena segurou firme na correia da coleira.
      - Voc no est facilitando as coisas para mim nem um pouco, Brutus, reclamou Selena. Ser que d para ficar quieto pelo menos alguns minutos?
      Em resposta, o co soltou um grunhido e saiu correndo e direo  fonte, arrastando a garota consigo. E antes que ela tivesse tempo de gritar com Brutus, escorregou 
no piso molhado e caiu de costas bem na fonte. Em questo de instantes estava ensopada.
      Achou que em seguida iria ouvir um coral de risadas, mas no foi o que aconteceu. Ronny soltou um grito de guerra.
      - Vamos fazer uma batalha de gua, pessoal! berrou ele, correndo em direo  fonte.
      Dan e Amy vieram logo atrs, gritando empolgados, seguidos de Snoopy, que latia forte. E durante uns cinco minutos, freneticamente eles ficaram a jogar gua 
em Selena e Brutus. Todos riram a valer e acabaram ficando totalmente molhados, enquanto Brutus latia desesperado.
      Afinal o jato d'gua parou, para mudar o formato. Aproveitando isso, os jovens saram de perto dos orifcios. Todavia continuaram rindo e brincando, fazendo 
ameaas sem sentido uns aos outros, ao mesmo tempo em que procuravam se livrar da sensao de molhado. Uma brisa leve comeou a soprar, vindo do rio Willamette. 
Selena tremia de frio.
      - Que frio! exclamou Amy.
      O cabelo da garota lhe caa pelo rosto e ela carregava Snoopy, que tambm tremia.
      - Vou para o carro, disse ela. Tchau, meninos. Depois a gente se v, 't bom? concluiu, saindo apressada em direo ao veculo.
      - Vou j, Amy, disse Selena, virando-se ento para o Ronny. Poe que voc perguntou quais os dias em que vou trabalhar? 
      Estava ensopada, mas sua curiosidade era maior que o desejo de correr para o carro aquecido. Ronny fora  casa dela algumas semanas antes para terem um encontro 
e, nessa ocasio, prometera lev-la ao cinema. Selena era persistente e poderia cobrar dele o cumprimento da promessa. Contudo queria que fosse ele quem mencionasse 
a questo.
      - Ah, acho que vou passar l para v-la, replicou o rapaz.
      Em seguida, abaixando um pouco a voz, concluiu: 
      - Quero lhe fazer uma pergunta.
      - Pergunte agora, insistiu Selena, batendo queixo. 
      - No. Voc est tremendo de frio, disse ele. Vou conversar com voc no trabalho, o.k.?
      Selena deu-lhe um olhar expressivo, fingindo estar com raiva, e afinal se rendeu ao frio que sentia e ao Brutus, que a puxava, querendo seguir em frente. Respondeu 
ento com uma expresso que Ronny costumava usar com freqncia:
      - Como queira!
      E assim dizendo, saiu correndo lentamente em direo ao carro. Esperava no ter demonstrado muito desinteresse pelo rapaz. Gostava de Ronny, mas no estava 
deslumbrada por ele. Via-o apenas como um colega; s isso.
      Amy j a esperava com o aquecimento do carro ligado.
      - E a? Ele te convidou para sair?
      - No, mas disse que vai l no meu servio conversar comigo. E isso pode significar muita coisa.
      - , observou Amy, engatando a r para sair da vaga, e ns duas sabemos o que queremos que isso signifique. E no precisa se preocupar. No vou dizer nada 
a Vicki.
      - , mas no tem nada mesmo pra dizer! interveio Selena abrindo um pouco a janela do seu lado. Fiiuuu! Exclamou. Que cheiro horrvel de cachorro molhado! Brutus, 
voc est precisando de um banho.
      O co soltou um grunhido alegre, dando a impresso de estar se vendo outra vez brincando na gua.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Dois
      
      Chegando em casa, Selena pegou uma toalha velha na garagem e enxugou Brutus. Depois conduziu-o para sua casinha. Entrou na cozinha pela porta dos fundos. Sua 
me estava junto ao fogo, preparando ovos mexidos numa imensa frigideira.
      Sharon Jensen era uma mulher esbelta e cheia de energia, que conseguia estar sempre a par do que ocorria com seus seis filhos. Nada a pegava de surpresa. Entretanto, 
quando se virou para olhar para Selena, abriu a boca de espanto.
      - Que foi que lhe aconteceu? indagou. Ou ser que  melhor nem perguntar?
      - Eu e a Amy descobrimos que quando quisermos dar um passeio matinal,  melhor no levar os cachorros. Brutus me arrastou para a fonte.
      Selena pegou o cabelo molhado com uma das mos e ergueu-o como que para fazer um rabo de cavalo. Em seguida inclinou-se sobre o fogo quentinho.
      - Isso est com um cheiro bom! exclamou. Pode fazer uns dois para mim tambm, me? Vou tomar um banho rpido para me aquecer.
      - Quando voc estiver pronta eles estaro aqui prontos tam bm, replicou a me.
      Dez minutos depois, Selena voltou, vestida com seu macaco desfiado na barra, de que tanto gostava. Na cabea, tinha uma toalha retorcida no alto, como que 
num turbante. Sobre a mesa da cozinha estava um prato com os ovos e duas torradas.
      Tnia, sua irm mais velha, estava sentada num tamborete, tomando suco de grapefruit e mostrando  me o dedo mindinho da mo esquerda.
      - Apertei a ponta do dedo na caixa registradora e quebrei a unha bem aqui, dizia ela.
      Tnia trabalhava na Loja Nordstrom, na seo de perfumaria. Tinha dezoito anos e parecia levar uma vida perfeitamente em ordem. Sempre em ordem tambm era 
como se encontrava seu lado do quarto, que ela dividia com Selena. Tnia era alta, magra e elegante. Jamais passaria uma manh de sbado com Selena passara em companhia 
dos amigos - entrando numa fonte e se molhando toda. A me olhou para a unha da moa com expresso de pena.
      - Tem mel a, me? indagou Selena.
      A me pegou no armrio um potezinho de mel, que tinha formato de colmia.
      - Papai lhe contou? perguntou Tnia, virando-se para a irm. A jovem estava pronta para ir trabalhar e muito bem arrumada. Nem um fio de cabelo estava fora 
do lugar. As duas irms eram muito diferentes, e naquele momento a diferena era gritante.
      - Contou o qu?
      - Da semana que vem.
      - O que  que tem na semana que vem? indagou Selena, levando  boca uma garfada de ovos mexidos.
      - Que eu vou com voc para a Califrnia.
      - O qu?! exclamou Selena, quase engasgando. Quem teve essa idia?
      Tnia fitou-a espantada e, em seguida, com ar de quem est magoada.
      - oi voc, Selena. At perguntou se eu queria ir, e respondi que ia pensar e depois lhe falava.
      - Mas isso foi vrias semanas atrs, disse Selena, recordando-se de que num momento de fraqueza tivera pena de Tnia.
      Naquela ocasio, as duas estavam tendo uma conversa calma, sem discusso - o que era muito raro entre elas. E haviam comentado que estava sendo difcil para 
ambas arranjarem amigos ali em Portland.
      Tnia fez uma expresso de tristeza.
      - Pensei que voc tinha falado pra valer, disse. Ento pedi a papai que olhasse a passagem pra mim tambm. E ele fez minha reserva no mesmo vo. Mas se voc 
no quer que eu v, acho que ele pode cancel-la.
      - O problema  que... principiou Selena e parou.
      No sabia como iria dizer o que estava pensando. O fato  que as amigas que iria visitar eram muito especiais para ela. Faziam par te de um aspecto de sua 
vida que no tinha nada a ver com a irm. No queria dividir esses amigos da Califrnia com Tnia - a perfeio em pessoa - como tivera de dividir tudo o mais, a 
vida toda.
      - Achei que voc no queria ir, falou afinal.
      - Eu no tinha certeza se queria ou no, replicou a outra. Mas depois comecei a pensar no assunto e achei que seria muito legal. Ento consegui facilmente 
tirar uns dias de folga no trabalho.
      Tnia ergueu-se e foi colocar o copo vazio na pia.
      - Mas se voc no quiser que eu v, no irei, concluiu.
      Selena sentiu o queixo tenso. Sabia que a me estava observando as duas pacientemente, deixando que elas mesmas resolvessem o problema sozinhas, como sempre 
fazia.
      - Tnia... principiou a garota, respirando fundo para se acalmar, no  que no quero que v comigo.  que fiquei surpresa, foi s isso.
      O sorriso voltou ao rosto da irm, dando um novo brilho aos seus olhos azuis.
      - Ento voc no acha ruim se eu for? indagou.
      - No, replicou Selena, procurando ser sincera no que dizia.
      - timo! Faz tanto tempo que no saio para passear. O que  que vocs pretendem fazer l? Tenho de saber para resolver que tipo de roupas vou levar.
      Selena sentiu um aperto na boca do estmago.
      - Bom, vamos ficar na praia, na casa dos tios da Cris. Alis, talvez seja bom eu ligar para l, para saber se pode ir mais uma pessoa.
      - U, mas voc disse que eu poderia ir.
      - , mas no falei nada com a Cris ainda.
      - Ah, essa  boa! Ento seria bom voc ligar para ela, antes de continuarmos os preparativos.
      Quando ela disse "antes de continuarmos os preparativos", Selena teve a sensao de que levara uma bolada na cabea, como acontecia s vezes no jogo de vlei, 
na escola. Continuarmos os preparativos? pensou. Esse programa era s meu!
      - Est bem, disse. Assim que eu acabar de jantar vou ligar para ela.
      Pelo menos ainda havia algo que era ela quem determinava: o modo como iria comer, apesar de que, de repente, perdera totalmente o apetite.
      - timo! exclamou Tnia. Eu agradeo muito, Selena. Bom, j vou. De tarde a gente conversa mais.
      Selena olhou para a me, que estava sorrindo e acenando positivamente, num gesto de aprovao. Compreendeu que a me estava achando que ela resolvera a situao 
da maneira certa. Pena que ela prpria no estivesse pensando o mesmo. Agora teria de ligar para a Cris e explicar que sua irm iria junto com ela. O mais estranho 
nisso tudo era que Cris, Katie e Trcia eram da idade de Tnia ou at mais velhas. No entanto, quando Selena convivera com essas garotas na Inglaterra, sentira-se 
igual a elas. Isso no ocorria com nenhuma das amigas que tinha agora. Alis, no se sentia assim nem mesmo com relao a Tnia, pois esta no a tratava de igual 
para igual, como Cris e as outras o faziam.
      Selena passou o final de semana todo adiando o interurbano, pois a idia de faz-lo a incomodava. A desculpa que deu para Tnia foi que no sbado tivera de 
trabalhar de 10:00h da manh at s 4:00h da tarde. No domingo fora  igreja e depois tivera de fazer o dever de casa. E com isso o final de semana se fora.
      Na tera-feira  noite, ainda no havia dado o telefonema. Quando entrou em casa, ao voltar do trabalho, encontrou a me, que j ia saindo da cozinha com uma 
bandeja de jantar: peru assado, verduras e doce de ma.
      - Ah, que bom que voc chegou! Como foi o dia l no trabalho?
      Selena sabia que no era hora para desfiar suas preocupacoes. No era o momento para contar que, no sbado, o Ronny dissera que iria conversar com ela no trabalho. 
Contudo ele no fora naquele dia e tambm no conversara com ela na escola, nem na segunda nem hoje. Tampouco fora hoje  confeitaria. Quinta-feira era o ltimo 
dia em que iria trabalhar antes da viagem. Quando seria que ele estava pensando em ir l?
      0ao que sua me no pudesse entender esse tipo de problema; claro que entenderia. Contudo naquele momento ela estava ali de p com o jantar para levar  av, 
e a comida iria esfriar. Ento Selena deu uma resposta simples:
      - Foi bom.
      - timo! Se quiser jantar, j est pronto.
      - Deixa-me levar esta bandeja para V May, replicou Selena.
      A me de Selena pareceu dar uma relaxada.
      - Deixo. E diga a Tnia para vir jantar.
      - Digo.
      A garota pegou a bandeja e subiu a escada. Parou junto  porta do quarto, que estava fechada, e gritou para a irm:
      - Tnia, o jantar est pronto! Fale com o pessoal l que pode ir jantando. Vou ficar aqui com a V May enquanto ela estiver comendo.
      A irm abriu a porta e indagou:
      - Voc j ligou para sua amiga?
      - Ainda no tive tempo, replicou, num tom meio rspido. Acabei de chegar.
      -  melhor ligar pra ela hoje ainda. Voc no est sendo legal comigo. Preciso saber se vou ou no, Selena.
      - , 't certo, 't certo. Vou ligar depois do jantar.
      Tnia passou pela irm e desceu a escada, deixando atrs do si um rastro invisvel de aroma de gardnia - efeito de seu trabalho no balco de perfumes. Selena 
foi para o quarto de V May, que ficava ao fim do corredor. Equilibrou a bandeja numa das mos e bateu  porta.
      - Sou eu, V May! disse. Vim trazer o jantar pra senhora!
      - Entra, queridinha! replicou a av, com sua vozinha aguda e trmula.
      Selena girou a velha maaneta e entrou no espaoso quarto da av, que estava se recuperando de uma cirurgia. V May estava vestida com sua camisola branca 
predileta, adornada com uma gola de renda. Ao v-la, a garota levou um susto, pois a senhora subira no sof que havia junto  janela e estava com o brao erguido. 
E o problema era que ela ainda estava com o p engessado.
      - V May! gritou ela, depositando a bandeja na mesinha e correndo para a av. O que est fazendo a? 
      - Cansei de ver aquela aranha ali na teia, explicou a av, mostrando os fios da teia que estavam no seu leno de renda. J ia at dar-lhe o nome de "Charlotte". 
 assim que se chama a aranha daquele livro de histrias, no ?
      Selena pegou o leno e colocou-o sobre a cmoda. Em seguida segurou a av pelo cotovelo e ajudou-a a descer.
      - A senhora no pode ficar fazendo coisas assim, v, disse ela. Quando precisar,  s falar comigo, com papai ou mame, e ns viremos matar a aranha para a 
senhora. No pode ficar subindo assim no sof, no. Vamos voltar pra cama!
      - Ah, deixe disso! falou a av, fazendo um gesto brusco com a mo no ar.
      Ela segurou o brao da neta e foi caminhando para o leito meio manquitolando.
      - Estou cansada de ficar deitada, continuou. Sabe o que eu gostaria mesmo de fazer? Ir  Eaton's tomar um milk-shake de chocolate. , era o que eu queria agora. 
Gostaria tambm de dar uma olhada nas tulipas, antes que o calor comece e elas sequem. E queria bater papo com meus amigos l na Eaton 's. Voc pode me levar l, 
no pode, queridinha?
      V May quebrara o p semanas atrs, quando estava no hospital, aps ter feito uma cirurgia de emergncia na vescula. Uma noite, resolvera levantar-se da cama 
e dar uma volta. Arrancara a agulha do soro e sara. Em dado momento, escorregara e cara, fraturando um osso. Nos ltimos anos, V May comeara a ter crises de 
falha de memria. Por causa disso, a famlia de Selena - que vivia numa cidade pequena prximo ao lago Tahoe, na Califrnia - fora morar com ela em sua velha manso 
em estilo vitoriano, em Portland. E sempre que ela estava com a mente boa, chamava Selena de "queridinha".
      - Vou perguntar ao papai, replicou a neta. Primeiro a senhora tem de jantar, antes que a comida esfrie.
      Em seguida, puxou as cobertas da cama para que a av sentasse.
      - Que  que tem a para comer? indagou V May, elevando as pernas devagar e enfiando-as debaixo da coberta.
      V May se inclinou um pouco para a frente, enquanto Selena ajeitava os travesseiros para que a av se recostasse neles, em seguida, a neta esticou bem a coberta 
e a colcha de retalho. A senhora cruzou as mos e olhou para a garota com uma expresso meio infantil, esperando a resposta.
      - Peru assado, v. Est com fome?
      - Estou. E peru  timo. Voc vai jantar comigo?
      - No, mas vou ficar aqui com a senhora.
      V May estendeu o brao e pegou a mo de Selena. A mo da av estava fria e parecia uma seda macia e enrugada.
      - Mas pode orar comigo, no pode?
      - Claro, disse a neta.
      Selena abaixou a cabea, sentindo que as emoes, at ento agitadas, se acalmavam um pouco. Gostava muito de momentos como esse, em que estava ali ao lado 
da querida av, orando com ela. Tendo quatro irmos e uma irm, Selena, quando era pequena, tinha poucas oportunidades de ficar sozinha com a av. Contudo, sempre 
que a famlia ia passar frias com V May, esta procurava arranjar tempo para ficar a ss com os netos, um de cada vez, e orar com eles. Isso dava a Selena a sensao 
de que era uma pessoa querida para a av; no apenas uma neta a mais. E assim ela aprendera que era desse modo tambm que Deus a via - como uma pessoa especial, 
digna de receber todo o amor e a ateno dele.
      - Amm! disse V May, quando Selena encerrou a orao, e deu um leve aperto na mo da neta.
      - Agora me conte como foram as coisas hoje. Foi bem na prova de Cincias?
      - A prova foi ontem, v. Fui bem sim.
      - Vai ganhar 10 de novo, no vai? comentou V May, cortando a fatia de peru com as mos ligeiramente trmulas.
      - Acho que sim.
      - Queridinha, no fica confiada s na sua inteligncia no, ouviu? Compreendeu?
      Selena fez que sim e sorriu. Sempre aprendia tudo com facilidade.  verdade que se quisesse tirar 10 tinha que se esforar um pouco, mas nada era difcil para 
ela. O mais difcil era sentir motivao para tentar ganhar s as notas mximas. O fato  que no se preocupava muito com as notas. 
      - E quando  que voc vai viajar para a sua grande aventura na Inglaterra?
      - Eu j fui  Inglaterra, v. Fui em janeiro, esqueceu? Agora vou   Califrnia. Viajo sexta-feira. Vou visitar as moas que conheci na Inglaterra.
      - Ah. ! disse V May, acenando positivamente e levando  boca uma pequena garfada de verduras.
      Depois de engolir, ela continuou:
      - Paul tambm vai estar l?
      Selena no respondeu de imediato. Mordeu de leve o lbio inferior. Tivera um tio de nome Paul, que morrera na guerra do Vietn. E quando a mente de V May 
ficava confusa, ela indagava a respeito dele.
      - No, no, disse afinal. Meus amigos que moram l so a Cris, a Katie, a Trcia, o Douglas e o Ted.
      V May pegou a xcara de porcelana, que continha um caf forte e tomou um gole.
      - Que pena que voc no vai encontrar o Paul l. Ele  muito bom. Voc lembra, n, que na ltima noite que passei no hospital, ele foi me visitar e me levou 
flores. E ainda ficou l comigo um tempo.  um rapaz to amvel!
      A jovem ento percebeu que a av no estava falando do tio. Referia-se ao outro Paul, quele que Selena conhecera no aeroporto de Londres. Contudo o relacionamento 
da garota com ele - se  que se podia chamar a isso de relacionamento - se resumia em alguns encontros casuais e cartinhas curtas. Era s.
      - No, V May. Paul no vai estar l, no.
      - Que pena! repetiu a av, comendo o doce de ma com a colherinha.
      Selena se acomodara na poltrona junto  lareira. Tirara o sapato e erguera os ps, sentando-se em cima deles para aquec-los. Fazia vrios dias, talvez semanas, 
que ela no se dava o luxo de pensar em Paul. No dia em que eles se conheceram, algo bem forte se passou entre os dois. E agora tinha a impresso de que a av tambm 
desenvolvera certa afeio por ele. Por que seria?
      - Voc precisa orar por esse rapaz, Selena, falou V May. Voc ora?
      - Ah, durante algum tempo eu orei, mas...
      Nesse instante, elas ouviram uma leve batida  porta. Era Tnia. Ela abriu a porta e disse:
      - Selena, telefone pra voc. Acho que  a Cris.
      
      Captulo Trs
      
      - Tem certeza de que seus tios no vo se importar? indagou Selena para Cris no telefone.
      Ela estava no escritrio do pai, o cmodo da casa que ela mais apreciava, e sentada na sua poltrona predileta. Fora atender ao telefone l para ficar a ss 
e mais  vontade.
      - Tenho, disse Cris. Tenho certeza de que no vo se importar. Meu tio gosta muito que a gente venha aqui, e minha tia gosta de... e aqui ela hesitou,  procura 
do termo certo. Ela adora planejar passeios e festinhas. Tenho certeza de que vai gostar de voc e de sua irm. Repete o nmero do seu vo para eu anotar.
      Selena disse novamente o nmero e Cris continuou:
      - Algum vai pegar vocs no aeroporto e lev-las para Newport Beach. Se eu ou a Katie no chegarmos l a tempo, o Ted disse que iria busc-las. Nesse caso, 
a gente se encontra na casa de meus tios. Eles vo querer que jantemos com eles no primeiro dia. O dia seguinte  livre pra ns. Podemos ficar na praia ou sair para 
fazer compras, o que vocs quiserem.
      - Ei, vocs no precisam ficar arranjando entretenimento para ns, no, gente, observou Selena. No temos de ficar passeando nem nada no. S ir  praia j 
vai ser bom demais.
      - O Ted e o Douglas vo trazer uns amigos deles de San Diego, aqueles que participam do grupo "Amigos de Deus".
      - Hmmm, parece que vai ser timo.
      - Vai sim, prosseguiu Cris. Estou muito alegre com a sua vinda. Os dias que passamos na Inglaterra foram to rpidos. Eu queria que voc morasse aqui tambm.
      - , eu tambm gostaria. Mas muito obrigada por ter me convidado e por deixar que a Tnia v tambm.
      - De nada. Voc e Tnia devem ser muito unidas, n?
      Selena aproximou mais a cabea do bocal. A porta do escritrio estava aberta e ela no queria que a ouvissem.
      - Somos no, replicou. Alis, no fui eu quem tive a idia de lev-la a no; foi ela quem pediu.
      - Ah, mas com certeza vai dar tudo certo, comentou Cris, tranqilizando-a. O quarto de hspedes da minha tia  bem espaoso e cabe ns quatro - eu, voc, Katie 
e Tnia. E durante toda a semana vai ter muita gente por aqui. Tenho certeza de que a Tnia vai gostar e voc tambm. Vai ser um "encontro" da turma toda. No vejo 
a hora de a gente se reunir.
      - Tambm estou ansiosa, disse Selena. Espero no ter dado uma impresso negativa de minha irm. S que acho que seria diferente, seria melhor, seria... ah, 
sei l, se fosse s eu, comentou.
      Em seguida, resolveu mudar de assunto e indagou:
      - E o Ted? Como vai ele?
      - Est timo, como sempre.
      Selena teve a impresso de que a amiga sorrira ao dizer isso.
      - Ele j resolveu se vai voltar para a Espanha?
      - Ainda no, explicou Cris. Tem uma poro de fatores que ele precisa levar em conta. Est fazendo algumas matrias na Universidade da Califrnia, em Irvine. 
Acho que j te falei sobre isso. Mas ele est sempre em contato com o diretor da misso, l em Carnforth Hall. A hora que ele quiser assumir um compromisso com eles, 
a misso vai aceit-lo para trabalhar com o grupo da Espanha, ou de qualquer outro pas da Europa.
      - E como  que voc fica nisso tudo? quis saber Selena.
      - Bom, eu estou fazendo dezessete crditos na faculdade, neste semestre. Quero terminar o curso de pedagogia o mais depressa possvel. Depois disso, a j 
 com Deus. 
      - Voc e o Ted ainda no fizeram outros planos?
      - No. Se tem uma palavra que descreve bem nosso relacionamento, essa palavra  de-va-gar. Tudo est caminhando bem lentamente para ns. E o fato de estarmos 
ambos morando no mesmo estado no mudou nada. Mas, por enquanto, isso no me incomoda muito; est tudo bem. E voc? O que aconteceu com aquele rapaz que conheceu 
no aeroporto? 
      - Paul? Nada.
      - E com aquele colega da escola que foi  sua casa? Como  o nome dele? Ronny? Ele j te convidou pra sair de novo?
      - No, respondeu Selena, dando um suspiro. At sbado passado parecia que ele estava me ignorando propositalmente. A ele disse que iria no meu trabalho para 
conversar comigo, mas no foi. Hoje ele me ignorou outra vez.
      - Parece um cara igual aos outros, comentou Cris. Mas no fique desanimada. Quem sabe? Talvez voc conhea um cara legal aqui, um dos amigos do Douglas. Newport 
Beach  um lugar maravilhoso para se conhecer gente bacana.
      - Foi l que voc conheceu o Ted, no foi?
      - Foi, replicou Cris. H quase cinco anos. D pra acreditar?
      - Cinco anos? Se algum quiser dar uma palestra sobre o tema "O amor tudo espera", deve colocar a foto de vocs dois no cartaz, para ilustrar. Cris riu.
      - Pra mim no parece muito tempo no. Aconteceu tanta coisa nesses cinco anos! Mas eu concordo que quando o amor  verdadeiro, vale a pena esperar. Se fosse 
preciso, eu esperaria o Ted mais cinco anos. Ele  o nico rapaz que realmente me interessa. E sempre ser.
      Selena sentia-se altamente inspirada ao conversar com Cris. E uma hora depois de haver desligado ainda sentia uma grande satisfao interior. A maneira como 
Cris e Ted se amavam era linda e muito inspirativa. Selena pensou se seria capaz de esperar um cara dez anos, caso estivesse apaixonada por ele. Talvez at fosse 
bom ela nunca ter tido um namorado firme. Se o estivesse apaixonada agora, com dezesseis anos, teria uma poro de problemas.
      No dia seguinte,  noite, voltou a pensar no assunto, quando estava fazendo o dever de casa. Perguntou a Tnia se esta achava que estava preparada para se 
casar. A irm se encontrava p, junto  cama, arrumando a mala para viajar. Naquele momento, ela dobrava meticulosamente algumas camisetas que colocara na cama. 
Pusera tambm alguns shorts, calas jeans e bijuterias em quantidade suficiente para abrir uma barraca numa feira de artigos de segunda mo.
      - Se estou preparada para casar? Que pergunta sem nexo. Eu nem tenho namorado!
      - Sei disso. Mas se voc conhecesse um rapaz e se apaixonasse por ele, iria casar com ele logo ou esperaria algum tempo?
      - Como assim? Esperar o qu?
      - Ah, deixa pra l, disse Selena, voltando a concentrar-se no trabalho de casa.
      - Quando  que voc vai arrumar a mala, Selena? indagou Tnia.
      - Amanh.
      - J lavou as roupas que vai levar? Ah, deixa, foi uma pergunta boba.  claro que ainda no lavou. Fique sabendo que no vou ajud-la a arruma as coisas na 
ltima hora no, viu? Nem precisa pensar em pegar minhas roupas emprestadas l na Califrnia.
      - Como se eu quisesse! comentou Selena. 
      Embora as duas irms usassem o mesmo nmero, o gosto de uma era completamente diferente do da outra. Selena gostava de roupas formais, comuns. Tnia j preferia 
trajes de estilo clssico, combinando bem as cores e tudo o mais.
      Ouviu-se uma batida  porta e logo em seguida o pai delas apareceu, o rosto sorridente e bem barbeado.
      - Eu e os meninos vamos levar V May para dar um passeio. Vamos at a Eaton's. Vocs querem ir? Hoje estou pagando o milk-shake.
      - No.
      - Obrigada, pai, replicou Selena, mas tenho muito dever de casa.
      - E ainda tem de lavar a roupa para a viagem, completou Tnia.
      - Ah, mas pode dar uma paradinha, insistiu o pai, entrando no quarto.
      Harold Jensen era um homem esbelto, mas j comeava a ficar calvo. Tinha sempre um ar "aberto", dando a entender que se podia conversar com ele a qualquer 
hora, com relao a qualquer assunto. Havia algo nele que dava a Selena a sensao de que ela era filha nica; no uma no meio de seis. Obviamente seus irmos tambm 
deviam ter a mesma sensao.
      - Vamos l, gente, disse ele, querendo tentar as filhas, milk shake de chocolate, e eu pago!
      - No, pai, replicou Selena, apontando para os livros, acho melhor ficar aqui mesmo.
      Ela estava sentada na cama, recostada nas almofadas junto  cabeceira, os joelhos encolhidos e um caderno no colo.
      - Acho timo o senhor levar V May. Ela vai ficar muito feliz.
      - Comigo ningum precisa falar duas vezes quando se trata de ir  Eaton's tomar um sorvete, comentou o pai. Querem que eu traga alguma coisa?
      - Pra mim no, respondeu Selena.
      - O senhor sabe que estou fazendo regime, n, pai? explicou Tnia.
      - 'T certo. Esqueci.
      Com isso, ele saiu e, da a pouco, elas ouviam a voz dele  porta do quarto de V May.
      - Madame, a carruagem est pronta e s suas ordens!
      Seguiu-se o rudo de ps caminhando pesadamente no corredor e logo depois os gritos de Kevin e Dilton, os irmos mais novos, que estavam l embaixo. Queriam 
saber se poderiam levar Brutus.
      - S se for para ele ficar preso na coleira o tempo todo explicou o pai.
      Selena sorriu. Como se a coleira fizesse diferena para aquele gigante. Teve vontade de ir tambm. O que queria mesmo era largar o dever de casa e sair para 
se divertir um pouco. Estava anoitecendo, mas ainda no estava completamente escuro. As interminveis chuvas de Portland tinham dado uma parada nos ltimos dias, 
e havia um perfume doce no ar clido da noite. Selena relembrou-se de que da a alguns dias estaria divertindo-se, numa praia ensolarada na Califrnia. Naquele momento, 
porm, tinha mesmo era que terminar o dever escolar.
      - Ser que devo levar meus dois mais? indagou Tnia.
      - Claro. Por que no? replicou Selena. Eles no tomam muito espao. Vou levar os meus trs.
      - No sei se levo, continuou Tnia.
      - Leve os dois, porque quando chegar l no vou lhe emprestar nenhuma de minhas roupas, brincou Selena, apontando para a irm o lpis e sacudindo-o para reforar 
a "ameaa".
      - Como se eu quisesse! resmungou Tnia, colocando os dois mais na mala.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Quatro
      
      
      Na quinta-feira  tarde, Selena chegou  Mother Bear alguns minutos antes do horrio e entrou pela porta dos fundos. Logo viu o avental azul sobre a mesa de 
almoo, ao lado de um tabuleiro cheio dos famosos pezinhos de canela da casa. Era ali que costumavam colocar os queimados, que, de gozao, o pessoal chamava de 
"a oferta queimada" do dia. Todos os dias havia pelo menos um tabuleiro que D. Amlia, a proprietria, considerava imprprio para a venda. E esse ela deixava para 
os funcionrios. Todos poderiam comer o quanto quisessem. Selena pegou um dos pezinhos. Ainda estava morno - e era assim que eles pareciam mais deliciosos.
      - Oi, Selena! disse Jody, uma colega que estava junto  caixa registradora. Que bom que voc chegou! Tenho que sair um pouco mais cedo para dar uma passada 
no banco. Voc j est pronta pra pegar servio?
      A garota no pde responder. Tinha a boca cheia da massa grudenta. Foi caminhando em direo  colega, amarrando o avental e mastigando o pedao de pozinho. 
Olhou para Jody e acenou que sim, pois ainda no conseguira engolir.
      - Que  isso menina! exclamou a outra, rindo. O tabuleiro est cheio. No precisa comer tudo de uma vez s!
      Selena engoliu rapidamente e se ps a rir tambm.
      - O.k., disse afinal. Estou pronta. Pode ir.
      - Tem certeza?
      Selena fez que sim.
      - Gosto muito de voc, sabia? afirmou Jody. J lhe disse isso?
      S quando meu horrio de trabalho coincide com o seu, pensou Selena. Sorriu, dando a entender que tambm gostava da colega, e pegou um copo de gua.
      - Voc traz vida a este lugar, continuou Jody, desamarrando o prprio avental. Vou sentir sua falta a semana que vem.
      - Pode deixar. Eu lhe trago um pouco de areia da praia, brincou a garota.
      - No, no. S vai  me deixar com mais inveja. E no volte toda queimadinha de praia e com o cabelo mais claro por causa do sol, no, hein!
      - Ah, meu cabelo no vai clarear, no. Isso posso garantir. Mas no ficar bronzeada, j no prometo. Voc sabe que esse  um dos problemas de ficar o dia todo 
deitada na praia, durante uma semana.
      - Ah, pare com isso. No quero nem ouvir falar desse assunto. J vou, viu? falou Jody, dando um aceno e saindo em seguida.
      Era uma jovem senhora, divorciada, de seus trinta e poucos anos, e tinha dois filhinhos. Trabalhava em dois empregos q parecia que nunca tinha tempo para as 
pequenas tarefas da vida. Por vrias vezes, Selena tivera de cobrir partes do horrio da colega, para que esta levasse os filhos ao dentista ou  escolinha de futebol. 
Raramente as duas ficavam juntas no trabalho.
      Como sempre acontecia quela hora do dia, o movimento na loja estava calmo. Em uma mesa, junto  janela, havia trs senhoras, que pareciam engajadas numa conversa 
muito sria. Em outro canto, dois homens de terno, com jeito de empresrios, olhavam para a tela de um computador porttil. Selena observou que eles estavam tomando 
caf e aproximou-se com o bule de caf recm-coado para servir-lhes mais. Em seguida, foi  mesa das mulheres.
      Nesse momento a porta abriu e Ronny entrou. Tinha no rosto aquele seu sorriso tpico, meio torto.
      Selena ergueu o bule e, dando uma de garonete, indagou:
      - Caf, senhor?
      Procurou disfarar o fato de que estava irritada com ele por ter assumido um ar muito misterioso. No sbado, ele dissera que iria  confeitaria para conversar 
com ela. Depois, na escola, durante todo o incio da semana, praticamente a ignorara. Hoje, quinta-feira, ele aparecia ali, dando a impresso de que sua inteno 
sempre fora ir l nesse dia. Se ela no soubesse que ele era acanhado e tinha pouca experincia com garotas, iria ficar com muita raiva.
      - Tem leite? indagou ele. E pode me trazer um pozinho de canela bem grande. O maior que houver a, com bastante glac.
      -  pra j! replicou Selena, voltando para detrs do balco.
      Ronny seguiu-a e encostou-se ao balco de vidro, vendo-a pegar o pozinho e a caixinha de leite, uma de 250 ml.
      - Ser que tem jeito de voc dar uma parada e vir se sentar aqui comigo? perguntou ele.
      - Neste momento, no, disse a garota. Estou sozinha aqui. S tem mais o Andy l nos fundos. Tenho de atender ao balco.
      - Ento vou comer aqui.
      Ele entregou o dinheiro para ela e em seguida abriu a caixinha de leite, bebendo tudo de uma vez s.
      - Acho que vou querer outra caixinha, disse ele. E um copo de gua, senhorita, por favor.
      - Claro, disse ela.
      A garota sentiu um leve aperto na boca do estmago. Por que tinha de ficar nervosa? Entregou o troco para Ronny e depois colocou sobre o balco uma caixinha 
de leite e o copo de gua gelada. Ele j dera duas dentadas no pozinho.
      - Uma delcia, no ? comentou ela.
      Agora era Ronny que estava com a boca pregando e no conseguia falar. Ento acenou que sim, concordando. 
      Vamos l, Ronny, pensou ela. O que voc queria me perguntar? Que coisa importante e misteriosa voc queria saber? Demorou tanto para decidir a vir aqui. Vai 
me convidar para sair de novo ou no?
      - Que tipo de flor voc gosta? indagou ele afinal. 
      - Eu?
      Essa era a ltima pergunta que Selena poderia imaginar que ele iria fazer. O rapaz acenou que sim e deu mais uma mordida no pozinho. O glac derretido comeou 
a escorrer-lhe pelo canto da boca. Selena levou o dedo ao canto da prpria boca e fez um gesto de quem limpa. Ele entendeu a indireta e pegou um guardanapo. Uma 
cliente entrou na loja, fazendo soar o sininho alegre que ficava  porta. Ouvindo o rudo, Ronny se afastou para o lado. A mulher pediu uma caixa de pezinhos, "para 
levar". Em seguida, chegou outro cliente que pediu um cappuccino. Selena logo se ps a preparar o caf, com o que agora j estava bem familiarizada. O homem pagou 
com uma nota de $20 dlares, e ela entregou-lhe o troco. Quando afinal pde responder  pergunta de Ronny, o rapaz j havia terminado de comer e a esperava calmamente, 
com o brao apoiado sobre a caixa registradora.
      - Voc queria saber que tipo de flor eu gosto? repetiu ela.
      J haviam se passado alguns minutos desde que ele lhe fizera essa pergunta, e ela ficara a pensar nas vrias razes possveis para ele ter indagado isso. Com 
grande esperana, focalizou a razo que lhe parecia bvia - e lhe era muito agradvel.
      - . De que tipo de flor voc gosta?
      - Depende, replicou ela. Para que seriam as flores? quis saber a garota.
      - Para um ramalhete.*
      ___________________
      
      *Nos Estados Unidos, quando um homem convida uma mulher para sair com ele, muitas vezes, leva para ela um pequeno ramalhete de flores (no original, corsage), 
que ela deve pregar na roupa por ocasio do encontro (N da T.)
      
      - Como assim? O ramalhete  para qu?
      - Daqui a quinze dias, a contar de amanh, vai haver um jantar beneficente no Hotel Hilton, no centro da cidade.  em prol do Centro Artstico de Portland.
      Selena pensou que essa maneira de convidar uma garota para sair talvez fosse a mais indireta do mundo. Mas Ronny era um pouco acanhado e tinha certa criatividade. 
Esse era o jeito dele. Recordou-se de que o pai dele tocara numa banda quando jovem. Talvez se tratasse de uma programao anual a que Ronny ia todos os anos com 
sua famlia. Imediatamente comeou a pensar na roupa que iria usar numa festa de gala como essa.
      - Um ramalhete de rosas seria legal, principiou. Ou die cravos. , mas de cravos talvez ficasse grande demais e pesaria para pregar no vestido. , deixe-me 
ver. Orqudea combina com uma mulher madura. Acho que eu escolheria boto de rosa, de cor bem suave - amarelo ou rosa-claro. Ah, j sei. Voc j viu aquelas rosinhas 
cor-de-pssego? Pois , elas ficariam muito bem num ramalhete.
      - 'T bom! disse o rapaz. Boto de rosa cor-de-pssego.
      Selena sorriu para Ronny, j antegozando o fato. Nunca recebera flores nem fora convidada para nenhum evento de gala. Seria legal ir a uma festa assim com 
Ronny, pois ele era um cara tranqilo e um amigo sincero. Comeou a pensar se, depois que voltasse da viagem, teria tempo para procurar um vestido adequado. Ou talvez 
pudesse fazer umas compras na Califrnia, como a Cris sugerira. No poderia ser nada luxuoso. Contudo teria que ser elegante, para que o ramalhete de rosas no destoasse. 
Tnia, obviamente, se ofereceria para maqui-la. E os pais provavelmente iriam querer tirar algumas fotos.
      Selena deixou a imaginao  solta, pensando nos detalhes dos preparativos para a festa. Outro fregus entrou na loja e pediu um pozinho de canela "para levar". 
Ela o atendeu. Recebeu o dinheiro e entregou-lhe o saquinho de papel com o pozinho e o troco, e nesse momento Ronny olhou para o relgio.
      - Tenho de ir embora, falou. Ei, me faz um favor? No conte nada disso para a Vicki, 't bom?
      - Claro que no, assegurou-lhe Selena.
      Selena no entendeu por que ele dissera aquilo. Talvez fosse porque Vicki estivesse comeando a interessar-se por ele, e o rapaz no queria que ela sentisse 
cimes de Selena.
      - A gente se encontra na escola amanh, disse ela. 
      - O.k. Tchau, respondeu ele, saindo em seguida.
      Selena se ps a realizar as tarefas costumeiras da tarde, comeando a limpar o balco.
      De amanh a duas semanas, disse consigo mesma. Talvez eu ache um vestido preto que d para usar com meu coletinho branco de renda. Ou quem sabe possa arranjar 
alguma roupa legal numa loja de roupas cssicas, um vestido de tecido transparente, de saia rodada. Rosas brancas seriam ais fceis de combinar do que cor-de-pssego. 
Por que fui falar logo cor-de-pssego?
      Durante mais ou menos uma hora e meia, vrios fregueses entraram na loja. Alguns minutos antes da hora de fechar, a porta se abriu mais uma vez. Selena ergueu 
os olhos e viu que a ltima cliente do dia era sua me.
      - Oi, querida! disse a me.
      Ela estava com uma roupa de fazer cooper e tinha o cabelo louro amarrado atrs num minsculo rabo de cavalo, um "coquinho", como dizia Tnia. O cabelo de Tnia 
era longo e vinha at abaixo dos ombros, tendo nas pontas um anelado natural. A jovem vivia criticando o cabelo de Selena, que era volumoso e rebelde e o da me, 
pouquinho e liso. A me tinha sempre muito trabalho quando queria fazer um penteado qualquer.
      - Achei que voc iria gostar de companhia pra voltar para casa, continuou ela.
      - E eu tenho uma coisa para lhe contar, me! exclamou Selena, trancando a caixa registradora e pendurando o avental.
      Em seguida, deu um "Tchau" para o Andy e saiu da loja de brao dado com a me.
      - O Ronny veio aqui e me convidou para ir a um jantar de gala com ele, de amanh a quinze dias.  um banquete beneficente para o centro dos msicos de Portland, 
ou algo parecido. Ele me perguntou de que tipo de flor eu gostava, e sabe o que respondi?
      - No tenho a menor idia, replicou a me, enquanto as duas subiam a rua em direo  casa.
      - Rosa cor-de-pssego. Onde ser que fui inventar isso? 
      - No sei. E que roupa voc vai usar?
      - Acho que terei de comprar um vestido novo.
      - Voc quer dizer novinho mesmo, ou novo s para voc, comprado num brech?
      - Tanto faz. O que for melhor. Mas tem de ser um vestido bem legal. Sei que no devia estar to empolgada, j que o Ronny  apenas um colega, confessou Selena. 
Mas estou achando to bom! Quase no acredito que ele me convidou pra sair!
      - Eu acredito, replicou a me, dando um leve aperto no brao da filha. Espere s, Selena Jensen. Assim que a notcia s espalhar, voc no vai ter mais tempo 
pra nada, porque todos os rapazes solteiros de Portland vo fazer fila para te convidar para sair com eles.
      - , replicou a garota. Quem me dera!
      Selena logo se ps a imaginar os rapazes que iriam fazer fila. Haveriam alguns surfistas, como os amigos de Cris, da praia. Nela estariam tambm alguns colegas 
da escola, como Ronny, que talvez fosse o primeiro. E bem l no fim haveria uma figura solitria, um rapaz com uma jaqueta de couro marrom e um chapu tipo Indiana 
Jones, como o que Paul estava usando no dia em que o conhecera.
      Era apernas um sonho, mas muito interessante. E Selena resolveu que iria acalent-lo durante algum tempo.
      
      
      
      Captulo Cinco
      
      Sexta-feira, na escola, Selena teve a companhia apenas de seus sonhos - deles e de uma dor cabea. Tinha ficado acordada at tarde arrumando a mala, sob os 
protestos de Tnia. Ronny lhe dirigira trs palavras: "Bom passeio! Tchau".
      Entretanto todo mundo parecia meio agitado, entregando os trabalhos e o dever de casa antes de iniciar-se o recesso. Selena pensou em contar para Amy que Ronny 
fora no seu trabalho e a convidara para sair com ele. Contudo no houve nem um momento adequado, onde pudessem conversar sem ouvidos curiosos por perto.
      Assim que as aulas terminaram, Selena encontrou a me e Tnia, que tinham vindo busc-la para seguirem para o aeroporto. Levaram menos de vinte minutos para 
chegar l. Estacionaram o carro para que a me pudesse v-las partir. Tudo correu sem incidentes, e quarenta e cinco minutos depois as duas j estavam voando em 
direo ao sul.
      - Olha como tudo est verdinho! exclamou Tnia, que se sentara  janela. Cansei da chuva que caiu nesse inverno, mas depois que a gente v o resultado, sente 
que vale a pena.
      Selena no respondeu. Estava absorta em seus pensamentos, recordando a viagem de volta da Inglaterra. Naquela ocasio, ela se sentara ao lado de Paul, e os 
dois ficaram conversando sobre a vida. Ela, como sempre, expressara suas opinies de forma muito franca, o que, ao que parecia, no "espantara" o rapaz. J seu relacionamento 
com Ronny era diferente. Com ele, no se sentia na obrigao de ficar provando nada. Por outro lado, porm, para ela no faziia diferena se ele gostasse dela ou 
no.
      Recordou-se de algo que Cris dissera dias atrs: que ela poderia conhecer algum rapaz ali na praia e se interessar por ele. Ficou a imaginar o que aconteceria 
ento. Provavelmente dariam longos passeios pela praia. Viveriam juntos situaes engraadas, das quais iriam rir. Brincariam na gua com as amigas dela. Depois 
ao se despedirem, prometeriam escrever um para o outro. Sua me sempre a incentivava a sonhar, e ela sonhava. S que nos sonhos que formulara para essa semana no 
havia a presena de Tnia.
      Desembarcaram  hora certa e Selena logo se ps a correr os olhos pelas pessoas que se encontravam no aeroporto movimentado.
      - Qual de suas amigas tem cabelo ruivo? indagou Tnia.
      - Katie, explicou ela. O de Cris  mais como o seu: castanho, comprido e liso.
      - Meu cabelo no  liso.
      - 'T bom, castanho, comprido e o que for.
      - No vieram nos buscar, falou a jovem, olhando  sua volta. Essa  boa, Selena. O que vamos fazer?
      - Fica calma, t bom? Ela disse que algum viria nos pegar. Vamos continuar procurando.
      As duas ficaram paradas no meio do corredor. Selena carregava a mochila e Tnia segurava sua frasqueira com as duas mos. As pessoas passavam por elas apressadamente, 
e o barulho reinante comeou a irritar Selena.
      - Acho que vou telefonar para ela, disse.
      - , acho bom, comentou Tnia.
      - Ela pode no estar em casa. Pode j estar vindo para c, ou presa no trnsito.
      - Mas deve ter algum l, que vai dizer onde ela est. Ns, aqui paradas, estamos chamando a ateno de todo mundo.
      - 'T bom, 't bom, concordou Selena, abrindo a mochila para pegar a caderneta de endereos.
      Nesse momento, ouviu algum chamando-a em meio ao burburinho do aposento.
      - Oi, Selena! Olhe aqui!
      As duas se viraram e viram um rapaz alto, com pinta de surfista, atravessando a multido e vindo em direo a elas. Quando ele se aproximou, a garota mais 
uma vez notou seus expressvos olhos azul-prateados.
      - Ted! exclamou ela, adiantando-se para abra-lo. Percebeu que a camisa dele, nas costas, estava molhada de suor.
      - Como  que vai? indagou ele. Oi, Tnia! continuou o rapaz, virando-se para a jovem que o fitava surpresa e ao mesmo tempo admirada.
      Ele lhe deu um abrao rpido, de boas-vindas.
      - Eu sou o Ted, concluiu.
      - Oi! respondeu Tnia, exibindo toda a sua educao e pose. Muito prazer em conhec-lo.
      - Deixe que eu carregue isto pra voc, falou o rapaz, estou estendendo a mo para pegar a maletinha dela.
      Selena havia brincado com a irm, dizendo que a frasqueira parecia uma mala de criana e s faltava pregar nela um carto com os dizeres: "Vou  casa da vov."
      - Pode deixar, replicou a jovem. Est leve.
      - Mas ento vocs devem ter outras malas.
      - Algumas! replicou Selena, rindo. Onde  a esteira de bagagem?
      - Ali adiante. Venham comigo. Quando chegarmos  casa de Bob e Marta, a Cris dever estar l. Ela ficou meio atrasada por causa do trnsito pesado de sexta-feira, 
ento me ligou e pediu que viesse pegar vocs. Desculpem por ter demorado.
      - Ah, no  nada, replicou Tnia, que em seguida se posicionou ao lado do rapaz. No demorou muito no. Agradecemos muito por voc ter todo esse trabalho conosco. 
Muito obrigada mesmo.
      - De nada.
      Chegaram ao setor de recolhimento de bagagem e Selena pegou a irm pelo cotovelo.
      - Ele j tem dona, disse, fazendo uma careta.
      Tnia tambm respondeu com uma careta. Selena comeou a sentir pnico. E se Tnia resolvesse dar em cima do Ted pra valer? E se o Ted ficasse seduzido pelos 
encantos dela? A verdade  que sua irm era muito mais bonita que Cris; era mais refinada e mais atirada tambm. Ser que ela, Selena, causaria o rompimento do namoro 
de Ted e Cris, por haver apresentado suarm a ele? A idia era por demais terrvel e ela se recusou a ficar pensando nela. Viu que sua mala estava na esteira e aproximou-se 
da beirada para peg-la.
      Atrs de si ouvia Tnia, com sua voz adocicada conversando com Ted.
      - Ento voc j est no ltimo ano da faculdade? O que pretende fazer?
      - Ainda no sei ao certo, replicou o rapaz.
      - J peguei a minha, disse Selena, interrompendo a conversa e largando a mala no cho. Quantas malas voc trouxe, Tnia?
      - S trs, respondeu a jovem, dirigindo  irm um disfarado olhar de repreenso.
      - Eu pego pra voc, interveio Ted.
      - Ah, faz esse favor pra mim. Obrigada, disse ela com um sorriso cativante.
      Selena nunca vira a irm dar um sorriso como aquele.
      Ah, meu pai! pensou. Agora comea meu pesadelo. Cris nunca vai me perdoar por ter trazido Tnia nesse passeio.
      Puseram-se a esperar a bagagem de Tnia. Contudo a ltima mala apontou na esteira, e em seguida esta parou de rodar. Ficaram parados ali mais alguns instantes, 
acreditando que a esteira recomearia seu giro para trazer as trs malas dela, nada.
      - Oh, que coisa horrvel! exclamou a jovem. Isso num me aconteceu!
      - Vem c! disse Ted.
      Em seguida, eles se dirigiram a um balco prximo e o rapaz explicou o acontecido. Quase uma hora depois, ele conseguiu convencer Tnia de que a nica coisa 
que lhes restava fazer era preencher os formulrios de reclamao, deixando ali o endereo de Bob e Marta. Assim que as malas fossem encontradas, eles as remeteriam 
para a casa deles.
      - Eu no acredito! exclamou Tnia, segurando a frasqueira com mais fora. Vou ter de sair e fazer umas compras imediatamente.
      - Eu lhe empresto algumas de minhas roupas, disse Selena suavemente, "curtindo" a ironia da situao.
      Ela no conseguia imaginar a irm vestida com suas calas jeans largonas ou suas saias rodadas.
      - Acho melhor irmos para a casa de Bob e Marta, e l voc decide o que vai fazer.
      Tnia permaneceu em silncio enquanto caminhavam para o estacionamento. Ted conduziu-as para um "Mercedes", que destrancou com um controle remoto do chaveiro. 
Tnia logo teve uma expresso de admirao que Selena interpretou assim: "Alm de ser lindo, tambm  rico!" A jovem logo se sentou no banco da frente. Sem dizer 
nada, Selena se dirigiu para o de trs.
      - Que carro maravilhoso! exclamou Tnia, no momento em que arrancavam.
      -  mesmo, concordou Ted.
      - J o comprou h muito tempo? quis saber Selena.
      - No. No  meu no.  do Bob, explicou o rapaz. Ele o comprou h alguns anos. Meu veculo vai passar por uma "cirurgia" esta semana. E estamos torcendo para 
que ele sobreviva.
      Assim que saram do aeroporto e entraram no trfego pesado da cidade, Tnia abriu a janela e apoiou o brao nela.
      - Aqui est bem mais quente do que em Portland, comentou ela. E ento, Ted, o que voc est planejando fazer esta semana?
      - A Cris  que sabe, respondeu ele. S estou aqui para fazer companhia.
      - Eu tambm, disse Tnia.
      Selena ficou a observar a irm, vendo-a analisar atentamente o perfil do rapaz.
      - No venho aqui desde que era criana, continuou ela. Voc precisa me mostrar os lugares mais legais.
      Ted no respondeu, mantendo o olhar  frente. Acelerou para atravessar um sinal amarelo. Selena logo se indagou se ele teria agido de outra maneira caso Tnia 
no estivesse ali. Claro que no. Era bvio que ele amava Cris, assim como tambm era claro que a garota o amava. Pelo menos ele parecera muito apaixonado pela Cris 
quando estavam na Inglaterra. , mas naquela ocasio, Tnia no estava por perto para complicar a situao.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Seis
      
      - Oi, garotas! Entrem! Sejam bem-vindas! Disse um homem de meia-idade, de cabelos escuros, que veio receb-las em sua linda casa de praia.
      Vestia uma camisa esporte de manga curta e estava de short.
      - Qual das duas  Selena? continuou ele.
      - Eu.
      - E essa ento  sua irm.
      - Tnia, disse a jovem, estendendo a mo para cumpriment-lo. Muito prazer em conhec-lo, Sr....
      - Pode me chamar de Bob. Entrem, por favor. Foram bem de viagem?
      - Minha bagagem extraviou-se, explicou Tnia, entrando pela ampla porta.
      A casa era toda decorada em estilo bem moderno.
      - Sua casa  linda.
      - Os elogios devem ser todos para minha esposa, disse Bob. Ela os adora. Marta, chegaram, gritou ele para dentro de casa. Acho que ela est no ptio interno 
com as meninas.
      - A Cris est a? indagou Ted.
      Selena percebeu que o rosto dele adquiriu uma expresso alegre. E antes que Bob respondesse, o rapaz foi saindo, atravessando a sala em passos largos.
      - Vamos pra l? convidou Bob.
      Em seguida, ele foi caminhando  frente das garotas, conduzindo-as. A sala tinha janelas enormes que davam para a praia. Ao fundo, via-se a imensido do mar. 
Entardecia, e o claro do sol enchia todo o cmodo, embelezando a moblia branca do aposento e um piano de cauda, tambm branco, que havia em um canto.
      Selena espiou atravs da porta de vidro, que dava para o patiozinho cimentado de frente para a praia, e viu Ted e Cris se abraando.
      timo, pensou. Agora Tnia vai ver que  perda de tempo tentar connquistar esse rapaz.
      Assim que entraram no ptio, Bob se preparou para fazer as apresentaes, mas antes que ele comeasse, Katie soltou um gritinho e se levantou da espreguiadeira 
onde estava sentada. Correu para Selena e lhe deu um abrao apertado. Em seguida, Cris se aproximou, abraando-a tambm, e a apresentou sua tia Marta. Com esta 
no houve abraos.
      Selena teve uma sensao desagradvel. No por causa da aparncia da mulher. Marta era muito bonita - pequena, magra, tinha cabelo castanho e sua maquiagem 
era impecvel. Vestia uma cala esporte e uma blusa alaranjada, bem longa e em corte god, que parecia de seda. Usava muitas jias, todas de ouro. "Bem conservada", 
teria dito o pai de Selena.
      Contudo a impresso que a garota teve foi de que havia uma muralha de gelo invisvel em torno dela. Era totalmente diferente do que Selena imaginara.
      - Por favor, meninas, disse Marta em voz um pouco mais alta do que os outros, Selena e Tnia, peguem alguma coisa para beberem. Est ali na bandeja. Depois 
venham sentar-se aqui conosco.
      Selena forou-se a lembrar que aquela senhora, embora uma pessoa fria, era a dona da casa, e dirigiu-lhe um sorriso. Clido.
      - Obrigada, disse a garota.
      Em frente da casa, logo em seguida ao ptio, havia uma calada larga. As casas ali naquele trecho da praia pareciam estar ligadas umas s outras. Quase todas 
eram sobrados. Algumas das mais distantes pareciam antigas e menores. A de Bob e Marta, porm, bem como as duas seguintes, eram imensas e possuam moblia de varanda 
da melhor qualidade.
      Marta conduziu as duas irms para o carrinho de bebidas que se achava a um canto. Olhou para Selena rapidamente, mas imediatamente parou o olhar em Tnia.
      - Diga-me uma coisa, Tnia, falou ela, h quanto tempo voc  modelo na Nordstrom?
      - Modelo? No sou modelo no. Sou balconista da seo de perfumes de uma loja de Portland.
      - No! exclamou Marta em tom dramtico, colocando no peito uma das mos de unhas bem feitas. Voc no  modelo?
      Tnia deu uma risadinha que, para Selena, pareceu sincera! sem malcia.
      - No, sou no.
      Selena colocou alguns cubos de gelo em um dos copos e pegou uma garrafa de refrigerante de sabor morango. Tnia veio logo atrs dela e preferiu gua mineral. 
Parece que a opo dela agradou a Marta.
      - Voc est desperdiando seu rosto e seu corpo, menina, disse a senhora. Tnia, voc devia pensar na possibilidade de se tornar modelo.
      - Nunca pensei nisso.
      - Ah, que  isso? Nunca?
      A jovem abanou a cabea.
      - Acontece que, por acaso, conheo algumas pessoas que trabalham nesse meio, continuou Marta. Bom, quer dizer, se voc estiver interessada, posso dar um toque 
em algumas delas e recomend-la.
      - Interessada em qu?
      - Em fazer um book, arranjar um empresrio, comear uma carreira de modelo. Isto , se voc quiser.
      Tnia dava a impresso de estar diante da prpria "fada madinha", que a borrifava com um pozinho mgico.
      - Eu... no sei, disse. Nunca pensei nisso.
      - Ah, que  isso? Custo a acreditar.  claro que voc j se olhou no espelho.
      Com o canto dos olhos, Selena viu Katie fazer uma caretinha para Cris. Esta limitou-se a ajuntar os lbios, como que engolindo tudo aquilo que tinha vontade 
de dizer.
      - Pessoal, disse Marta, aproximando-se de Tnia, dem licena por uns minutos. Ns duas vamos para o meu escritrio para conversarmos um pouco.
      E com um gracioso gesto teatral, convidou Tnia a entrar na casa.
      Selena sentou-se numa das cadeiras que havia em torno da mesa. Ted e Cris estavam sentados na mureta da varanda. Achavam-se de mos dadas e to embevecidos 
que Selena achou que algum deveria tirar uma foto deles.
      Katie voltou para a espreguiadeira e Bob se sentou numa das cadeiras da mesa, ao lado de Selena.
      - O que foi aquilo, gente? indagou Selena.
      - Pois , Selena, exclamou Katie, dando uma risada alta, voc conseguiu. Realizou o sonho da Marta. Trouxe para ela uma "Barbie", uma boneca perfeita. Isso 
 uma coisa que nem Cris nem as amigas dela nunca foram.
      Selena se virou para Bob, achando que ele devia estar ofendido com a franqueza de Katie. Contudo o tio de Cris sorria. Era um sorriso muito leve, mas no havia 
dvida de que estava sorrindo. Pela expresso do olhar, ele dava demonstrao de que concordava com Katie, embora nunca viesse a confess-lo abertamente.
      - No acredito! exclamou Selena. Mal chegamos  Califrnia e j comeamos bem!
      - Isso  s o princpio, interveio Ted.  bem possvel que quase no vejamos mais sua irm no resto da semana.
      Selena teve vontade de dizer que para ela isso seria timo, mas conteve-se a tempo.
      - Tenho a impresso, Selena, falou Cris, de que sua irm saber se defender bem de minha tia. Tia Marta at que  bem intencionada, s que...
      - Precisa conhecer Jesus, disse Ted, completando a frase que a Cris iniciara.
      -  isso mesmo, concordou Katie.
      Selena virou-se para Bob.
      - Deve ser duro estar casado com um incrdulo.
      Seguiu-se um silncio meio constrangedor. Depois de alguns instantes, Bob respondeu:
      - Isso depende. Voc est querendo dizer que  difcil para mim estar casado com Marta, ou difcil para Marta estar comigo?  que nenhum de ns dois  o que 
voc chama de crente.
      Selena percebeu que dera um fora.
      - No quis dizer isso, falou ela, gaguejando um pouco e sentindo o rosto avermelhar-se.
      - No tem importncia, replicou Bob. Eu at acho que todo mundo tem de acreditar em alguma coisa. E neste momento creio que est na hora de comear o churrasco.
      Ele se levantou e deu uma piscadela para Selena.
      - No se preocupe, falou. Gosto quando uma pessoa diz o que pensa e aprende a agir assim desde jovem.
      Em seguida, desviou os olhos para Katie e continuou:
      -  por isso que gosto tanto da Katie.
      - E a admirao  mtua, replicou a moa. Agora, se voc se convertesse...
      - Ah nunca se sabe, comentou Bob. A orao do justo tem muita eficcia. No foi esse verso que lemos a semana passada, Ted?
      O rapaz fez que sim.
      - E acho que vocs aqui so as pessoas mais justas, mais certinhas que conheo, observou Bob.
      - Ah , n? exclamou Katie.
      - Quer que o ajude a na grelha? indagou Ted.
      - No. J estou com tudo sob controle. Qualquer dia desses voc vai ter de comear a mexer com essas coisas. Mas por agora,  mais importante que continue 
segurando essa mozinha a.
      Bob deu uma piscadela para Cris e saiu assoviando. Seguiu para o outro lado da casa e desapareceu de vista. Selena baixou a cabea, cobrindo o rosto com as 
mos.
      - Puxa, gente, acho que nunca experimentei tamanha confuso numa primeira visita  casa de algum! Todo mundo aqui  sempre to franco assim? E como  que 
ele sabia aquele versculo?
      - Bob est participando de um grupo de estudos bblicos comigo faz alguns meses, explicou Ted.
      - 'T brincando! Apesar de no ser crente ele vai com voc?
      - Claro, por que no? E o pessoal l o trata de igual para igual. Ele est buscando a Deus sinceramente. Portanto o melhor que pode fazer  reunir-se com outras 
pessoas crentes que tambm esto buscando. No ms passado, meu pai tambm comeou a freqentar as reunies.
      - Seu pai pelo menos est procurando conhecer o cristianismo, comentou Katie. Meu pais no vo nem ao culto de Natal da igreja. S ficam dizendo que um dia 
vou superar tudo isso e entender que tudo  uma iluso. J a vida da Cris  to certinha que parece fico.
      - Seus pais tambm so crentes, no so, Selena? indagou Cris.
      - Minha famlia toda. Meus pais, irmos, avs. Todo mundo que conheo. Acho at que me acostumei com a idia e nem dou o devido valor a isso.
      - , reconheo que tambm tenho esse problema, falou Cris. De repente, todos ouviram um som como de uma rajada de vento e, logo em seguida, gritos agudos.
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      Captulo Sete
      
      Ted deu um salto erguendo-se da mureta e correu para o outro lado da casa, com Katie logo atrs dele. Cris e Selena ficaram paralisadas durante alguns segundos, 
ouvindo os gritos agudos. Marta veio correndo de l de dentro, seguida de Tnia.
      - Que  que foi? O que est acontecendo? indagou.
      Selena e Cris se levantaram ao mesmo tempo e saram correndo para o ponto de onde vinham os gritos. Chegando l, viram Ted abraando Bob peito a peito e, em 
seguida, jogando-se no cho e rolando de um lado para outro, envoltos em fumaa. Ted colocara uma toalha grande entre os dois, e ela tambm estava fumegando. Do 
fogozinho a gs onde estivera o churrasco subiam chamas altas, de quase um metro de altura, que ameaavam a parede da garagem.
      Kaiie pegou outra toalha de praia, envolveu nela o brao e foi se aproximando do fogo para fechar o gs.
      - No, Katie! gritou Cris.
      A garota parou momentaneamente. Nesse instante, Marta chegou por trs delas e ps-se a gritar histericamente.
      - Ligue para o Resgate! Agora! berrou Katie.
      Em seguida, abaixando-se para ficar fora do alcance do fogo, desligou o fogo. As chamas diminuram at apagar-se.
      Marta continuava a gritar. Selena virou-se rapidamente e entrou em casa procurando um telefone. Avistou um na parede da cozinha e comeou a discar o "911".* 
Algum atendeu, e ela procurando controlar o flego e pensar com clareza, foi dando as informaes sobre o que acontecera. Depois repetiu tudo que dissera.
      
      
      ___________________
      * 911  o nmero do corpo de bombeiros e do servio de resgate nos Estados Unidos, sendo o mesmo para todos os pontos do pas. (N. da T.)
      
      Instantes depois, Cris entrava correndo na cozinha. Tomou o fone das mos de Selena e deu mais detalhes do acontecido, informando em seguida o endereo. A 
garota permaneceu na linha, conectada com a central telefnica, esperando a ambulncia chegar. Selena ficou ao lado dela, tremendo. Assim que ouviram a sirene do 
veculo, correram  entrada para abrir a porta para os bombeiros e socorristas.
      Tudo estava um caos. Os homens logo colocaram Bob e Ted em macas, mas Selena no quis olhar. Marta desmaiou e eles a puseram numa padiola tambm. Os bombeiros 
verificaram calhas e partes do telhado  procura de pequenos focos. Um policial interrogou Cris, que descreveu o que acontecera at com certa calma e coragem, enquanto 
o homem ia anotando tudo.
      Katie parecia a menos abalada de todos. Ficou parada, quieta, enquanto os socorristas examinavam seu cabelo e sobrancelhas, que tinham ficado chamuscados. 
A toalha com que envolvera o brao estava cada no cho, junto ao fogo, bem queimada.
      - Acho melhor levarmos todos vocs, disse um dos socorristas para Katie. S por precauo.
      - Vocs querem ir? indagou a jovem.
      Pelo jeito como ela falara, parecia que iriam dar um passeio; e no ir para um pronto-socorro de ambulncia.
      - Eu vou seguindo a ambulncia no carro, falou Cris.
      - Nada disso, interveio Katie, voc tem de ir com Ted na ambulncia. Eu dirijo.
      - Se for problema, ns no precisamos ir no, gente, falou Selena.
      - Vamos fazer uma coisa, disse um socorrista, interrompendo a troca de sugestes das garotas. Deixe-me tomar a deciso. Todas vo conosco e eu digo onde cada 
uma vai, est bem? 
      Vinte minutos depois eles estavam no setor de emergncia do Hospital Memorial. Tnia e Selena se sentaram na sala de espera, enquanto Cris e Katie passaram 
 sala de atendimento junto com Marta e os dois homens. Marta voltara a si quando estava na ambulncia e agora chorava angustiadamente. No momento em que os homens 
empurraram a padiola de Bob e a de Ted para dentro da sala de atendimento, o tio de Cris gemia alto. 
      - Que horror! disse Tnia, com lgrimas a brotar-lhe dos olhos. Nem quero acreditar que isso aconteceu!
      - Acho que eles vo ficar bons, comentou Selena calmamente. Parece que Ted colocou uma toalha entre eles e com isso apagou um pouco o fogo.
      - Mas voc viu o brao do Bob? indagou Tnia num cochicho. E a orelha dele... e a voz dela foi morrendo.
      De propsito, Selena procurara no olhar. Quando ela chegara ao lado da casa, junto com os socorristas, sentira o impacto do cheiro horrvel de carne queimada 
e cabelo chamuscado. Ento conclura que no conseguiria olhar.
      Passaram-se cinco minutos em que as duas permaneceram em silncio.
      - Ser que deveramos ir l dentro para saber notcias deles? indagou Tnia.
      - Acho que algum vai vir aqui nos comunicar, replicou Selena.
      No alto, havia um televisor onde exibiam a repetio de um episdio de um seriado de comdia. Contudo no havia nada de engraado nele. As risadas eletrnicas 
irritavam Selena. Por que ser que tinham de deixar aquele filme idiota ligado ali? Ser que no podiam deixar as pessoas esperarem em silncio?
      Naquele momento entrou uma senhora com uma criana no colo, que chorava muito. Uma enfermeira conduziu a mulher para o setor de atendimento. Assim que elas 
atravessaram a porta e esta se fechou, o choro da criana ficou menos audvel.
      - Eu nunca conseguiria trabalhar num lugar desses, cochichou Selena para Tnia.
      - Nem eu, comentou a irm. Como ser que eles esto l dentro?
      - Sei l. Acho melhor ns orarmos, Tnia.
      - Eu j estou orando.
      - . Eu tambm, replicou Selena. Mas acho que devem orar juntas.
      E antes que a irm dissesse algo concordando ou discordando, Selena aproximou-se mais dela e abaixou a cabea. Em seguida, fez uma orao longa e fervorosa. 
Quando terminou e ergueu a cabea, viu um rapaz sentado na ponta da mesinha de centro, cabea baixa, evidentemente orando junto com ela. Assim que ela encerrou, 
ele tambm se ps a orar.
      - Pai, eu concordo... principiou ele, prosseguindo ento com a petio.
      Selena sentiu-se reconfortada e amparada. Era Douglas, que fora o lder de sua equipe de evangelismo por ocasio da viagem  Inglaterra.
      Quando Douglas terminou, um outro rapaz, que Selena no conhecia, tambm se ps a orar. Assim que ele disse "Amm", a garota se levantou, passou os braos 
em torno do pescoo do amigo, num abrao emocionado, e deixou correrem as lgrimas que estivera reprimindo at aquele momento. Afinal afastou-se, olhou-o direto 
nos olhos e deu um leve sorriso.
      - Oi! disse ela em voz baixa. 
      Douglas era o tipo de rapaz que tinha sempre no rosto um ar brincalho, como um garoto que est fazendo alguma arte. Naquele momento, porm, seu semblante 
estava srio. Selena nunca o vira com uma expresso assim.
      - Ns passamos l e um dos vizinhos nos contou o que sucedera, explicou ele. J souberam alguma notcia?
      - Ainda no. S sabemos que o Bob e o Ted sofreram queimaduras. Katie ficou um pouco chamuscada e Marta desmaiou.
      - Isso  bem da Marta, comentou o rapaz. Ah, Selena, este aqui  meu amigo Jeremy. Jeremy, esta  a Selena.
      - Oi! disse a garota, cumprimentando-o. Prazer! Esta aqui  a Tnia, minha irm.
      - Oi, Tnia! falou Jeremy, com um aceno de cabea para a moa.
      Nesse momento, a porta de folha dupla se abriu e Katie apareceu. Vinha com o brao direito enfaixado e apoiado numa tipia. Na testa e sobrancelhas, haviam 
passado um tipo de pomada.
      - Oi, Douglas! Oi, Jeremy! U, como foi que acabaram vindo aqui? Ser que nosso acidente deu no noticirio local?
      - Ns estvamos indo para a casa da Trcia, disse o rapaz, levantando-se e dando um abrao de lado em Katie. A resolvemos dar uma passada na casa de Marta 
e Bob para ver se vocs queriam sair hoje  noite. Um vizinho deles estava na porta e nos contou o que aconteceu. Como  que voc est?
      - Estou tima. Acho que a enfermeira que tratou de mim  estudante e pensa que quanto mais gaze e esparadrapo puser num paciente, maior ser a nota que ir 
ganhar. Ela queria pr curativo nas minhas sobrancelhas. Voc acredita numa dessas?
      Douglas olhou para ela atentamente.
      - Que sobrancelhas? indagou.
      - , eu sei, disse a garota de bom humor, estou um monstro, n?
      Selena notou que no lugar das sobrancelhas ruivas da amiga, agora havia s umas pontinhas curtas, espetadas e queimadas.
      - Pegue meu cabelo! ordenou Katie, erguendo uma mecha do seu cabelo ruivo e liso.
      Selena observou que um bom punhado dele parecia que derretera" de baixo para cima e agora estava estranho, lembrando uma corda de pontas desfiadas.
      - Est com um cheiro horrvel, continuou Katie.
      - Voc tem alguma notcia do Bob e do Ted? quis saber Selena.
      - No. A Cris ainda est l. Ouvi um dos mdicos falar que iriam dar um sedativo para Marta. Ela ficou totalmente descontrolada, no ficou?
      - , mas a situao toda foi horrvel, comentou Selena, sentindo que por alguma razo precisava defender a tia de Cris.
      -  gente, preciso ligar para meus pais e pedir uns dados sobre o nosso plano de sade, disse Katie. Selena, ser que voc pode vir comigo para discar pra 
mim?
      - Claro.
      - Tambm vou, interveio Douglas. Vou ligar para a Trcia tambm. Ela j deve estar preocupada, querendo saber o que aconteceu conosco.
      Quando iam saindo, Selena ouviu Jeremy perguntar para Tnia.
      - E a, vocs vm muito aqui?
      A jovem riu e o rapaz continuou:
      - Que maneira mais desagradvel de comear um passeio, no ? Vo ficar a semana toda?
      Vinte minutos depois, quando terminaram os telefonemas e retornaram, os dois continuavam conversando.
      - Alguma novidade? indagou Douglas. 
      - No, ainda no, replicou Jeremy, com a ateno ainda presa ao que Tnia dizia.
      - Vou l dentro, falou Katie. Eles vo me deixar entrar. E se no deixarem, comeo a chorar e digo que quero que ponham curativo na minha sobrancelha.
      E saiu caminhando para a porta, tomando muito cuidado para no deixar o brao machucado encostar em nada.
      Selena passou entre Jeremy e Tnia e voltou a sentar-se onde estivera antes. Parecia que os dois estavam mergulhados numa discusso profunda, sobre assuntos 
espirituais. Isso era algo que ela raramente via a irm fazer.
      - Acho que existem bases para as duas situaes, comentou Tnia.
      - Tambm penso assim, concordou Jeremy. Mas voc j percebeu que a maioria dos cristos hoje no entende isso?
      - U, mas eles podem vir a entender, insistiu a jovem. Minha opinio  que todo mundo tem a responsabilidade de procurar compreender isso por si mesmo. 
      - , voc tem razo, falou o rapaz.
      Selena no conseguiu descobrir com clareza do que  que eles estavam falando. Contudo estava impressionada com o modo como a irm encarava a conversa. Nunca 
a vira ter essa postura, principalmente com um rapaz.
      Instantes depois chegava Trcia. Selena apresentou-a a Tnia, informando  irm que ela era a namorada do Douglas. O casal cumprimentou a jovem com um sorriso 
agradvel. Tnia e Jeremy, porm, mal disseram "Oi!" Continuaram com a conversa, discutindo a questo da paz no Oriente Mdio, dando a impresso de que, para eles, 
no havia mais ningum por perto.
      - E eles s se conhecera, hoje? indagou Trcia com voz suave.
      No rosto redondo da jovem estampava-se uma expresso de espanto, o mesmo que Selena tambm experimentara. Esta fez que sim e em seguida cochichou:
      - Nunca vi minha irm assim.
      - Eu tamhm nunca vi o Jeremy desse jeito, replicou Katie.
      
      
      
      
      Captulo Oito
      
      Por volta de meio-dia do dia seguinte, parecia que o pior da crise estava superado. Pela manh, a me de Cris, Margaret, chegara, e com isso Marta ficara bem 
mais calma. Selena custou a acreditar que as duas fossem irms. Eram totalmente diferentes, tanto na aparncia como no temperamento. A garota sentiu uma certa identificao 
com Margaret. Esta tambm devia saber o que era ter uma irm que parecia uma "estrela", e o que era viver sempre em segundo plano com relao a ela. Selena se ps 
a pensar se uma das duas seria filha adotiva, como era o caso de Tnia.
      Quando Cris chegou do hospital com Ted, a casa estava cheia de gente. O rapaz tinha a parte superior do brao direito toda enfaixada e apoiava o esquerdo sobre 
o ombro da namorada. Na verdade, ele no precisava se apoiar nela para caminhar, mas parecia que os dois estavam apreciando muito aqueles papis de "doente" e "enfermeira". 
Pouco depois, acompanhados de Marta e Margaret, os dois entraram na cozinha, onde Selena, Tnia e Katie acabavam de tomar o caf da manh.
      - Toque aqui! gritou Katie para Ted assim que o rapaz entrou.
      A moa se levantou do tamborete e ergueu uma das mos para o rapaz, e os dois bateram as palmas um do outro.
      - Todo mundo j sabe que voc  o heri do dia, Katie? indagou Ted. Voc contou pra sua me, Cris?
      - Herona, faz favor, replicou Katie, abanando a cabea fazendo danar o cabelo ruivo, liso e curto. Todos j sabem a verdade: que voc  o heri.
      - Se voc no houvesse apagado o fogo, insistiu Ted, todos ns teramos ido pelos ares.
      O rapaz se sentou e pegou um vidro de picles que estava no balco, de onde tirou um pedao grande. Em seguida, deu uma dentada nele. Selena se contraiu interiormente, 
imaginando o petisco avinagrado na prpria boca.
      - Seu brao queimou muito? perguntou Katie.
      Ted colocou a ponta do dedo no ombro e riscou uma linha imaginria de cerca de dez centmetros, at a barra da manga da camiseta, e em seguida apontou tambm 
para o cotovelo.
      - S isso, disse. No foi muito. O Bob  que se queimou bastante. Pegou a pele do brao esquerdo de alto a baixo, o pescoo at a base da orelha e parte do 
cabelo na nuca.
      - Mas poderia ter sido pior, comentou a me de Cris. Graas a Deus, que vocs tiveram reaes prontas diante do problema.
      - Eu no sei dos outros, disse Cris, olhando para Katie e Selena, mas eu me senti perdida. No sei nada de primeiros socorros. At pensei que, se quero trabalhar 
com crianas, preciso aprender muito, para saber como se age numa crise.
      - Isso mesmo, concordou Katie. Do jeito que as crianas so hoje, nunca se sabe quando vo botar fogo numa grelha de churrasco, na hora do recreio.
      - Voc entendeu muito bem o que eu quis dizer, replicou Cris, fitando a amiga com fingida irritao. Ainda bem que voc logo lembrou de apagar o fogo. Isso 
nem me passaria pela cabea.
      O mdico falou quando  que o Bob pode voltar pra casa? indagou Marta.
      - No perguntei, explicou Ted. Vocs vo pra l? 
      - Vamos, disse Marta. Eu e Margaret vamos passar a tarde l. E vocs podem ficar  vontade aqui em casa. Tnia, no esqueci sobre o telefonema para o empresrio 
no, viu? Segunda-feira vou ligar pra ele.
      - Ah, esse problema todo  muito mais importante, replicou a jovem. Por favor, no fique pensando nisso. No precisa telefonar no.
      - No, no. Eu disse que vou ligar; e vou mesmo. Vamos s deixar passar esse final de semana e segunda-feira a gente recomea tudo. Ah, e por falar nisso, 
o pessoal da companhia area encontrou sua bagagem?
      Selena ficou tensa, imaginando como Tnia iria reagir diante daquela gente toda. De manh, a jovem havia ficado irritada, dizendo que se recusava a vestir 
a mesma roupa dois dias seguidos. Selena lhe oferecera um de seus shorts e uma camiseta, mas a irm batera a porta do banheiro na cara dela. Afinal Tnia puxara 
a roupa da mo dela, sem dizer nada. Agora, ento, estava vestida com um short de bainha desfiada e uma camiseta branca tamanho G. Isso contrastava enormemente com 
as roupas que Tnia costumava usar: shorts de corte perfeito, com cinto e tudo, e camisetas mais ajustadas, de gola rente ao pescoo.
      - Estou pensando em ligar para eles de novo, replicou ela com calma.
      - Ah, liga sim, disse Marta. Acho que minhas roupas no servem em voc, j que  mais alta que eu, mas se encontrar em meu closet alguma que lhe sirva, pode 
usar. Se algum precisar de ns, estaremos no hospital. Tchau, gente. 
      E Marta fez uma sada teatral, com a me de Cris logo atrs. Selena ficou a se indagar quantas vezes na vida as duas j teriam vivido essa mesma cena. A imagem 
que viu reforou nela ainda mais a deciso de nunca sair atrs de Tnia, como se fosse uma sombra da irm.
      Cris e Ted se puseram a preparar sanduches para eles mesmos. Tnia tirou um pedao de papel do bolso e pegou o telefone.
      - E a, o que vamos fazer hoje? indagou Katie. Algum est sabendo alguma coisa sobre o Douglas?
      Tnia cobriu o bocal com a mo e disse:
      - Ele e o Jeremy esto na casa da Trcia. Pediram que a gente ligasse para l assim que resolvssemos o que iramos fazer.
      - O que voc quer fazer, Ted? perguntou Cris.
      - Qualquer coisa.
      - Menos surfar, talvez, disse Katie, levantando a idia.
      - , eu poderia enrolar um saco plstico no brao, disse o rapaz, pegando o sanduche com a mo esquerda.
      A fatia de po que ficara por baixo se rompeu e parte do alface e da carne caram na mesa.
      -  mesmo! exclamou Katie em tom irnico. Voc no est conseguindo nem segurar um sanduche. Como  que vai se equilibrar na prancha?
      Todos riram e o rapaz replicou:
      - Vou fazer uma coisa de cada vez. Primeiro como o sanduche, depois vou pegar a prancha.
      - Ah, mas s at acabar o efeito do analgsico, continum Katie. Depois voc s vai querer saber de dormir.
      - Mas  isso que todo mundo est querendo? interveio Cris. Ir pra praia?
      Desde a tarde do dia anterior, quando Selena vira aquela imensido de areia convidativa, estava morrendo de vontade de enterrar os ps nela. De manh, quando 
todos comeavam a levantar e se aprontar, ela pensara em sair de fininho para dar uma volta por l. Contudo achara melhor no ir, pois poderiam querer ir ao hospital 
ou outra coisa qualquer e no saberiam onde encontr-la. Ento, naquele momento, o que ela mais queria era passar a tarde na praia.
      - Pra mim est timo, disse.
      - Pra mim tambm, falou Katie.
      - Vou ter de ir comprar um mai, comentou Tnia, colocando o fone no gancho. Ainda no h nem sinal de minhas malas. Ento estou sem mai.
      - Eu lhe empresto um dos meus, observou Selena.
      A garota estava curtindo tudo aquilo mais do que deveria. Sabia muito bem que, se fosse o contrrio, ela no gostaria que Tnia lhe oferecesse uma de suas 
roupas a cada vez que abrisse a boca. Contudo a ironia da situao era boa demais; no dava pra deixar passar em branco.
      - Eu trouxe vrios mais, voc sabe, n? At deixo que voc escolha primeiro.
      - Ah, fez Tnia. Deixa-me ver. Ser que escolho aquele com a estampa do "Piu-Piu" ou o da aula de educao fsica?
      - Que legal! exclamou Katie. Voc tem um com o "Piu-Piu"?
      - No tenho no, replicou Selena.
      Propositalmente evitou encarar a irm para no receber o olhar gelado dela. Assim as "flechadas" que a outra iria atirar-lhe na expresso do rosto cairiam 
por terra.
      - Quando eu estava com dez ou doze anos tive um. E no trouxe o da escola, no.
      - Minha tia no iria importar-se se voc pegasse um dos dela, interveio Cris. Tenho certeza de que ela tem uma poro.
      - Ser que serviriam em mim? perguntou Tnia.
      - S tem um jeito de sabermos. Vamos l.
      - Vou esperar aqui, disse Ted, conseguindo comer mais um pedao de seu sanduche sem deixar cair nada dele.
      - Eu tambm, falou Selena, tampando o vidro de maionese e assumindo ares de quem estava encarregada de arrumar a cozinha.
      - Pois eu no, comentou Katie. Recusar um convite para ver o armrio de roupas da Marta? Vamos l, Selena! Minha filha, isso no acontece todo dia, no.
      - Ah, consigo sobreviver sem isso, pode estar certa!
      - Voc que sabe! replicou a ruivinha, rindo alegremente quando as trs saam da cozinha. Pois eu vou!
      - Acho bom a gente ligar para o Douglas, falou Ted. Pode ser que eles j estejam na praia.
      O rapaz se levantou para pegar o telefone e prosseguiu:
      - Que bom que voc veio, Selena! E Tnia tambm. Foi bom as duas terem vindo.
      Selena abriu a porta da geladeira com fora, com mais fora do que seria necessrio.
      ? Pois eu no achei bom ela ter vindo no. Queria no ter sugerido que ela viesse. Queria que ela arranjasse os amigos dela pra l e me deixasse em paz com 
os meus. Gostaria que ela no fosse to enjoada e exigente com tudo. Queria que ela no fosse to bonita e atraente aos olhos dos rapazes em geral. Queria...
      E aqui Selena se deteve, antes que pensasse algo de que mais tarde poderia arrepender-se. 
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Nove
      
      Um fato muito bom com relao  praia, pensou Selena, era que todo mundo ali gozava dela de maneira igual. Qualquer um, fosse quem fosse, podia deitar-se na 
areia morna e ondulada, sentindo o calor gostoso que o sol derrama sobre todos, indistintamente (ou deveramos dizer benevolentemente?)
      Por alguma razo, assim que Selena se viu deitada sobre uma toalha, o rosto voltado para o cu, ouvindo a melodia rtmica do mar, a inveja que sentia de Tnia 
se evaporou completamente. Aquelas pessoas ali ainda eram suas amigas. Estava numa praia da Califrnia, deitada na areia, e tinha uma semana inteirinha de folga 
para curtir essa vida. A garota se recusou a permitir que qualquer acontecimento, fosse o que fosse, viesse estragar seu passeio.
      Contudo houve ainda um outro fator que contribuiu para que ela se acalmasse, ou para que, pelo menos, redirecionasse seus pensamentos. No momento em que Ted 
ligara para o Douglas, este lhe informara que haviam chegado mais alguns rapazes do grupo deles de San Diego. Essa pequena frase, "mais alguns rapazes", ecoou no 
corao da jovem como se fossem as batidas de uma sineta. Era como se ela estivesse dizendo:
      "Acabou a aula de raiva. Agora vai comear a dos sonhos e desejos."
      Recordou-se de que quando conversara com Cris no telefone, na semana anterior, esta mencionara a possibilidade de Selena conhecer algum durante esta viagem. 
Talvez um dos amigos de Douglas. Afinal Newport Beach era um timo lugar para se conhecer gente muito especial.
      A garota permaneceu deitada na areia, quietinha, ouvindo os outros conversarem e esperando que Douglas e sua turma aparecessem. Que tal se ela abrisse os olhos 
e desse de cara com aquele que seria seu futuro marido? Como seria ele? Como se chamaria? Ser que no estava deixando suas esperanas irem longe demais? Sua me 
sempre lhe dizia que sonhasse, que sonhasse muito. No faria mal se alimentasse um pequeno sonho particular nesta tarde, faria?
      Anteriormente Selena nunca fora de se entregar a muitos devaneios com relao a rapazes. No que estivesse desinteressada por eles, claro que no. O que acontecia 
era que no possua muita autoconfiana. Quando era menor, antes de se mudarem para Portland, morava numa cidade bem pequena. Por isso no via nenhum dos garotos 
do lugar como um provvel namorado, s como amigos. E isso no se aplicava apenas aos colegas de seus irmos mais velhos, mas tambm aos garotos de sua idade. Conhecia-os, 
todos eles, desde o jardim-de-infncia e enxergava alguns como coleguinhas e outros como uns carinhas aborrecidos.
      Agora, porm, mudara de idia, desde que fizera amizade com essas pessoas que aqui estavam, e principalmente nesta semana que passava ao lado delas, cada uma 
com seu "par". Parecia que se no estivesse interessada por algum, no seria de fato parte da turma. Ento, mesmo reconhecendo que era isso que inspirava a "sonhar" 
com um namorado, resolveu entregar-se aos devaneios. Afinal tinha dezesseis anos. Estava mais do que na hora de levar a srio seus encantos femininos. A Tnia, nessa 
idade, com certeza, j levava.
      - Oi Jeremy! Vem c!
      Era a voz de Tnia chamando o rapaz. Ela dera muita sorte na busca que fizera no closet de Marta. Encontrara um mai preto, com alas que se cruzavam nas costas. 
Ficara um pouco pequeno para a jovem e at meio cavado no quadril, mas Tnia estava maravilhosa, claro. Alm disso, pegara tambm uma sada de praia, com um debrum 
dourado, que parecia o tipo de pea que as atrizes de cinema deviam usar para relaxar  beira da piscina l em Hollywood. Contudo, pensou Selena, era algo que ela 
no usaria nem morta.
      A garota ouviu a voz de Douglas e de Trcia, que se aproximavam com seus amigos. Pensou em sentar-se e abrir os olhos, mas hesitou um momento. Estivera alimentando 
tanta esperana em seus sonhos que agora tinha receio de ficar decepcionada, se abrisse os olhos e passasse da fantasia para a realidade.
      E ficou mesmo. Abriu os olhos e viu apenas Douglas, Trcia e Jeremy. Os "outros rapazes" no tinham vindo. Tnia, que havia se posicionado um pouco atrs do 
grupo e ligeiramente afastada, logo se ps em atividade. Comeou a preparar um pequeno espao na areia perto dela para que Jeremy colocasse ali a toalha dele. Criava 
um cantinho especial para o novo casalzinho.
      - Como  que vai o nosso "doente"? brincou Douglas.
      - timo! respondeu Ted, dando um olhar sonhador para o luar. As ondas da tarde j esto comeando a chegar, mas Cris no quer que eu v surfar.
      - Ah, ! replicou a jovem. Como se eu conseguisse impedi-lo de fazer o que quer!
      Olhando para Cris, Selena sentiu que a amiga ficava muito  vontade naquele lugar. Ela e Ted estavam sentados em cadeiras de praia que haviam pegado na casa 
de Bob e Marta. A garota no possua um corpo espetacular como o de Tnia, mas tinha formas bem proporcionadas e estava muito bem naquele mai cor-de-vinho. Ele 
dava a impresso de que sua pele j estava com um belo bronzeado. Parecia bem mais bronzeada que Selena. No brao direito, ela usava uma pulseira de chapinha dourada, 
onde estavam inscritas as palavras "Para Sempre". Selena ouvira a histria da jia. Sabia que Cris a ganhara de Ted alguns anos antes e que houvera ocasies em que, 
por um ou outro motivo, a jovem a retirara do pulso. Parecia que agora estava ali para ficar.
      Outro fato que ela notou com relao a Cris foi que ela mantinha uma postura elegante. No se "jogava" na cadeira quando se sentava, como fazia Katie. Contudo 
tambm no era graciosa e mida como a Trcia. Nessa questo, ficava entre as duas. Isso tornava Cris uma pessoa acessvel, uma mulher para quem todos gostavam de 
olhar. Selena comeou a desejar que tivesse uma aparncia madura e refinada como a da amiga, em vez daquele seu jeito de menino.
      - Cad o Larry e o Antnio? indagou Ted, depois que todos j haviam derramado sua quota de "peninha" em cima dele.
      - Antnio foi ver se arranjava uma prancha para alugar, informou Trcia, sentando-se perto de Selena. Temos de ficar de olho para ver se os localizamos. A 
praia est to cheia que vai ser difcil para eles nos encontrarem.
      - Oh, mas eles foram gastar dinheiro  toa, interveio Ted. Poderiam ter usado minha prancha.
      Douglas havia trazido uma body board, uma prancha menor, que jogou no cho sobre sua toalha. A de Ted era de cor laranja bem viva, e estava encostada na cadeira 
de praia.
      - Eu gostaria de usar sua prancha, disse Katie. Voc me empresta?
      - Claro, replicou o rapaz. Sei que voc vai cuidar muito bem da minha Naranja. Ela j viajou o mundo inteiro comigo, continuou ele, ajeitando-se melhor na 
cadeira e pegando uns culos de sol.
      Selena sabia que naranja era "laranja" em espanhol. E dava para entender por que Ted se referia  prancha com esse nome. Ela era de cor alaranjada, bem berrante. 
Contudo no compreendeu direito por que ele recomendou que cuidasse bem dela. Para Seelena, a prancha parecia bem "ralada".
      - Desde quando voc resolveu virar surfista, Katie? Indagou Cris, procurando ganhar a ateno da amiga.
      - Desde que fiquei sabendo que o Antnio vinha pra c hoje, explicou a garota, com um brilho diferente nos olhos verdes. J que ele estar l no mar, surfando, 
tambm quero estar.
      - Quem  Antnio? quis saber Selena.
      Katie estava sentada ao lado dela, mas olhando para o lado de Cris. Nesse momento, virou-se para Selena para lhe dar a "ficha" do rapaz.
      -  um estudante italiano, o mais maravilhoso que j veio da Itlia para c.
      Selena riu do entusiasmo juvenil da amiga. Cris se inclinou para ela e explicou:
      - Katie tem uma queda por estudantes estrangeiros. Ela j lhe contou sobre o Michael?
      - Um cara da Irlanda, n?
      - Irlanda do Norte, corrigiu Katie. Eu tenho culpa se s gosto de rapaz com sotaque?
      - Ah, quer dizer que no importa de onde ele , comentou Selena. O que interessa  que tenha um sotaque diferente.
      - Isso! respondeu Katie.
      Nesse instante, ela olhou para longe, por cima da cabea de Selena, e fixou bem os olhos na direo de dois rapazes que se aproximavam.
      - So eles ali? indagou ela.
      Todos se viraram, inclusive Selena. Obviamente ela estava interessada em saber como seu pequeno sonho iria terminar. Os "outros rapazes" mencionados eram Antnio 
e Larry, e j que Katie "tomara posse" de Antnio, s restava Larry. E ela queria dar uma boa espiada nele.
      Os dois acenaram e vieram se aproximando da roda de amigos que aumentava cada vez mais. Selena deduziu que Antnio era o que estava  direita, pois tinha cabelo 
castanho-escuro. Ento Larry era...
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Dez
      
      Alto! Larry era o cara mais alto que Selena j vira. Devia ser jogador de futebol americano. A prancha de surfe, debaixo do brao dele, mais parecia um skate. 
Quando o rapaz chegou perto, achou tambm que deveria ser havaiano. 
      Selena nunca achara que era um tipo de pessoa que identifica os outros pela cor da pele e pela altura. Contudo aquele cara chamava ateno por causa dessas 
duas caractersticas. O namorado que ela idealizava em seus sonhos no era nada parecido com Larry.
      Douglas fez as apresentaes. Selena sorriu para os dois ao cumpriment-los, e Katie informou a Antnio que pegara a prancha do Ted emprestada e iria "pegar" 
ondas ao lado dele.
      - Ento vamos logo, replicou o rapaz. Vamos cortar ondas.
      - Voc que dizer "pegar", corrigiu Katie, ao mesmo tempo em que se levantava e limpava a areia do corpo.
      - O Larry sempre diz "cortar". No  assim que vocs falam, no? indagou o italiano, com um sotaque de derreter o corao de qualquer mocinha sonhadora.
      O rapaz tinha ombros largos, bem feitos, dentes muito brancos e olhos atraentes. Selena deu toda razo a Katie por estar interessada nele.
      -  isso mesmo, disse Larry, com voz profunda, apoiando o amigo. Cortar.
      A jovem ergueu os braos como que se rendendo.
      - T bom. Aceito. Vamos cortar ondas.
      - Voc tambm vai, Larry? quis saber Douglas.
      - Claro que vou. A Gisele e a Helen vo chegar hoje  tarde. Tenho a sensao de que depois que elas vierem, a Gisele  quem vai resolver tudo para mim. Ento 
tenho de aproveitar estas horas enquanto ainda estou livre.
      Nesse momento, os sonhos que Selena vinha acalentando de ter algum romance com um dos rapazes acabaram de ruir.
      - , as mulheres tm a mania de fazer isso com a gente, no ? comentou Douglas, afastando-se um pouco de Trcia, fugindo do tapa que viria em seguida.
      - Apoiado! disse Ted, erguendo o vidro de gua mineral que estava bebendo.
      Selena teve a impresso de que o rapaz estava plido e talvez sentindo dores. Usava uma camiseta de manga comprida cobrindo a gaze que lhe protegia o brao. 
Ele colocara uma toalha de praia sobre todo o seu lado direito. Era provvel que o calor do sol na queimadura o estivesse incomodando.
      Katie pegou a prancha de Ted e foi caminhando para a gua seguida de Antnio.
      - Ela sabe manejar aquele negcio? indagou Larry.
      - Eu j dei umas explicaes pra ela, replicou Ted. Agora vocs dois vo ter de aperfeioar o talento natural dela, concluiu ele, remexendo-se na cadeira e 
esticando o corpo para procurar uma posio mais confortvel.
      - Selena, gritou Douglas, voc j deslizou numa body board? Se quiser, pode usar a minha.
      - , acho que vou, disse a garota, erguendo-se.
      Douglas, Trcia e Larry foram juntos com ela em direo  gua, onde as ondas espumantes chegavam, refrescando a areia escaldante. Larry se jogou no mar e 
se ps a "remar" em direo ao ponto onde Katie e Antnio se encontravam. Os dois j haviam se afastado bem da linha da arrebentao. Douglas deu algumas instrues 
breves para Selena. Disse-lhe que devia manter a prancha sempre  frente do corpo e deitar-se sobre ela, com as pernas esticadas para trs. Em seguida, ela foi caminhando 
mar adentro, para chegar junto de Katie e dos dois rapazes.
      Selena viu uma onda que lhe pareceu gigantesca e se quebrou sobre ela, arrastando-a de volta para a praia. Levantou-se, ensopada, mas ainda segurando a prancha. 
Deu um sorriso para Douglas e Trcia, que a observavam, e disse:
      - Essa foi s treino!
      - Vou com voc at passar as ondas, disse Douglas. Tem algumas "manhas" para passar esse trecho,
      Chegou uma onda grande e Douglas "furou-a", reaparecendo  frente com o cabelo todo alisado para trs.
      -Mergulhe! gritou ele para Selena.
      Ela obedeceu e, com mais duas ondas, eles chegaram onde os outros estavam boiando, num ponto onde a gua era profunda. Katie e os rapazes estavam sentados 
na prancha, flutuando tranqilamente, pois ali o mar era calmo. Selena percebeu que naquele lugar no dava p, ento agarrou-se com firmeza  prancha. Sabia nadar 
e tinha boa resistncia, mas no muita experincia no mar. As condies ali eram bem diferentes de um lago. A gua era mais turva e no se enxergava nada, a no 
ser alguns pedaos de alga que esbarravam em sua perna, produzindo uma sensao viscosa. Ainda no poderia dizer com certeza se estava gostando daquilo ou no. Contudo 
nunca iria deixar que umas simples algas marinhas impedissem que apreciasse o mar.
      - Ouvi dizer que na semana passada apareceu um em San Onofre, e que ele chegou perto de alguns surfistas, dizia Larry. A gua naquela baa  bem quente por 
causa da hidroeltrica. Talvez seja por isso que eles vo pra l.
      - O qu? indagou Douglas, que se aproximara de Antnio. gua-viva?
      - No; tubaro.
      - Que nada! exclamou Selena.
      Todos a fitaram com expresso sria.
      - De vez em quando aparecem tubares aqui, sim, disse Douglas. Ultimamente no, mas aqui  o hbitat deles, n? 
      - Por que eles no podem ficar mais pra l? Comentou a jovem, encolhendo as pernas.
      - Eles tm de vir aqui procurar alimento, explicou Douglas. Vi um aqui faz umas trs semanas.
      - E o que voc fez? quis saber Katie.
      - Sa da gua, claro!
      - No foi em Huntington Beach que apareceu um no passado? perguntou Larry.
      - Foi. Voc viu no jornal? continuou Douglas, nadando junto da prancha do outro e se segurando nela. Apareceu um enxame l. E era dos brancos, grandes, acho. 
Quem me contou foi um surfista que conhecia outro surfista que estava l. O cara viu os tubares e pensou que eram golfinhos, e de repente o atacaram.
      - Ah, pra com isso, disse Selena.  mentira!
      Todos ficaram srios, inclusive Katie, confirmando as palavras de Douglas.
      -  verdade, repetiu o rapaz. Tinha uma foto da prancha dele. Estava partida no meio. O cara ficou internado umas duas semanas, e os mdicos tentaram reconstruir 
a parte inferior da canela dele. Ele contou que o tubaro veio de baixo e que ele estava balanando as pernas na gua. A foi uma bocada s, e a perna dele virou 
hambrguer.
      A imagem que se formou na mente de Selena era horripilante, ento ela resolveu mudar de assunto.
      - E a? Voc vai me mostrar como  que se desliza neste negcio ou vou ter de descobrir sozinha?
      Uma onda leve passou por eles, elevando-os, e seguiu seu caminho at a praia.
      - Essa a era uma onda boa pra se pegar, comentou Antnio.
      Em seguida, o rapaz deu uma olhada para trs e disse: 
      - Que foi isso?
      - Que foi o qu? indagou Katie.
      Larry girou a cabea na mesma direo.
      - Tambm vi. Era um peixe?
      - Um peixe grande, afirmou o italiano.
      - Onde? indagou Douglas, tentando erguer-se um pouco para ver o que era que os outros dois estavam olhando. Vocs esto querendo nos enganar?
      - Est bem ali! insistiu Antnio, estendendo o brao e apontando na direo da prancha de Larry. No est vendo no?
      Selena desejou estar sentada sobre a prancha tambm. Iria sentir-se mais segura e teria melhor viso da cena. Normalmente ela no tinha medo de bichos; seus 
irmos mais novos estavam sempre s voltas com algum. Certa ocasio, ela estava comendo flocos de milho numa tigela e em dado momento se levantou da mesa. Quando 
voltou, eles haviam posto na tigela uma lesma amarela, viscosa. Ela fingiu que nem viu nada e deixou o cereal de lado, comendo apenas a torrada. Assim os dois acabaram 
ficando muito sem graa.
      Agora, porm, era diferente. No lugar onde estava boiando, o mar parecia imenso e muito fundo. Sentiu-se insegura, principalmente porque no via as prprias 
pernas debaixo da gua.
      - Vocs esto doidos! disse Douglas.
      Em seguida, soltou a prancha do Larry, que estava segurando, e deu umas braadas, afastando-se deles e pondo-se a correr os olhos pela gua.
      -  s umas algas marinhas, disse. No estou vendo nada.
      E voltou nadando para perto deles. De repente, porm, deu um grito estridente, ergueu os braos e afundou na gua.
      - Que foi? gritou Katie.
      Selena estava paralisada de medo e no conseguiu dizer nada.
      - Gente! berrou Katie. Vo atrs dele!
      Antnio mergulhou e Larry seguiu-o. Selena e Katie ficaram a olhar para a gua, procurando avist-los, mas nem sinal dos trs.
      - Onde  que eles esto? indagou Katie, aflita.
      Selena esticou o pescoo e forou a vista para tentar enxergar alguma coisa. Viu bolhas, agitao na gua e mais nada. De repente sentiu algo viscoso e frio 
passar por sua perna.
      - Katie! gritou.
      E antes que ela tivesse tempo de pensar algo, o objeto frio e viscoso agarrou em sua perna e puxou-a para a gua. No mesmo instante, viu Katie dar um grito, 
e cair da prancha na gua.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Onze
      
      Selena sentiu o nariz encher-se de gua. Nesse momento, um brao forte pegou-a e conduziu-a para cima. Imediatamente respirou fundo, agoniada, e estendeu o 
brao para pegar a body board, que estava boiando a uns trinta centmetros dela. No instante seguinte, Douglas apareceu  tona, bem  sua frente. Segurou no outro 
lado da prancha. Em seu rosto estampou-se um sorriso malicioso.
      - Te peguei! gritou ele, rindo a valer. Foi simplesmente sensacional.
      Quase sem flego e fazendo pausas entre as palavras, a garota respondeu:
      - Foi... a... pior... idia... que... voc... j... teve!
      Katie tambm veio  tona, logo atrs de Selena, e no perdeu tempo discutindo. Logo se ps a espirrar gua em Larry e Antnio e a atirar pedaos de alga neles.
      - Isso foi o seu "batismo" para entrar pra nossa turma, explicou Douglas.
      - Ah, seu nojento, exclamou Selena.
      - No conta pra Trcia no, t? pediu Douglas. Ela  louca por mim. No quero que perca as iluses que tem a meu respeito.
      - Agora j sei por que ela ficou na praia.
      - Isso mesmo. Ela, a Cris e as outras tambm j tiveram um "batismo" desses. E geralmente usamos esses mesmos elementos: alga marinha, gua salgada e body 
board. So o nosso equipamento de praxe. E toda vez a Katie "cai". J levou uns seis "batismos".
      Selena viu a prancha alaranjada do Ted que ia sendo levada para mar alto.
      - Acho melhor algum pegar aquela prancha, disse.
      Enquanto os dois outros rapazes pegavam as prprias pranchas, Douglas saiu nadando com braadas firmes para recuperar a do Ted. Afinal ele a entregou para 
Katie, que ainda estava sem flego.
      - Espere s! disse a garota, dando um olhar expressivo para o amigo. Um dia desses ainda vou lhe pagar com juros. Voc vai ver.
      - Estou esperando, disse ele em tom brincalho. Acho que voc s vai conseguir quando eu j for velho e casado.
      - Ah! exclamou Selena. Isso  um anncio oficial do casamento?
      Douglas ficou meio acanhado, sem graa pelo que dissera.
      - Vamos l, falou. Voc precisa aprender a pegar uma boa onda.
      Nesse momento, ouviram o barulho de um avio pequeno, voando baixo. Todos olharam para o alto. O aparelho estava passando bem acima deles e puxava uma faixa 
publicitria que dizia: "Protetor Solar Malibu".
      - Que  aquilo? quis saber Selena.
      - Propaganda, explicou Katie. Voc ainda no tinha visto essas propagandas no?
      Selena abanou a cabea.
      - Pois , atraiu sua ateno, no foi? continuou a outra. Recesso escolar. Praia cheia.  uma excelente maneira de fazer prepaganda.
      - Olha l, gente, disse Antnio, as ondas esto melhorando.
      - Voc quer dizer aumentando? indagou Katie.
      - Sei l. O que voc quiser. Mas seja o que for, vou pegar a prxima que passar.
      E em seguida, o rapaz deitou-se sobre sua prancha e saiu "remando" em direo  praia. Os outros ficaram olhando. Ele chegou  crista da onda no momento certo. 
Ergueu-se meio desequilibrado, mas conseguiu ficar em p, permanecendo assim por mais de um minuto. Afinal caiu.
      - Esse cara tem um talento natural, disse Larry. Est na hora de acabar com a festa dele. Vamos l, Katie. Voc vai comigo?
      - Desde que voc no me venha com mais ataques de tubares...
      Eles remaram juntos bem depressa para pegarem a primeira onda. Larry chegou a pegar a ponta dela, mas no conseguiu levantar-se na prancha. Katie perdeu a 
onda. Selena ficou a observar e viu a amiga posicionar-se para tentar surfar na prxima. Ela ajoelhou-se na prancha e conseguiu apanh-la, sendo levada at  praia. 
Talvez ela no tenha tentado ficar de p para no "abusar" da sorte.
      Trcia entrara no mar at uma pequena distncia, onde a gua lhe dava pelos tornozelos. Vendo a amiga conseguir aquele feito, bateu palmas. Selena sentiu uma 
grande satisfao em fazer parte daquela turma, apesar das brincadeiras maldosas. Como gostasse muito de aprender tudo que era novidade, naquele momento decidiu 
que, assim que conseguisse deslizar bem na body board, iria tentar pegar ondas naquela prancha alaranjada.
      E acabou percebendo que pegar onda na body board foi at fcil. Douglas s precisou explicar os movimentos bsicos uma vez. Da a pouco, estava pegando ondas, 
uma atrs da outra, lado a lado com Douglas, que deslizava "de barriga", parecendo um bichinho doido. Selena estava adorando aquela sensao de ser levada pelo mar 
forte, carregada pela onda. Achou que deveria ser maravilhoso morar perto da praia e poder brincar assim muitas vezes.
      Algum tempo depois, sentiu que estava na hora de dar uma parada. Douglas tambm achou que j deslizara bastante. Ento os dois saram em direo  praia. Passaram 
por Katie e Antnio, que estavam voltando para dentro do mar para pegarem uma ltima onda.
      - Ser que existe alguma possibilidade de sair um namoro da? indagou Selena para Douglas.
      Eles estavam "torcendo" o cabelo para tirar a gua enquanto caminhavam em direo aos outros que haviam ficado na areia.
      - Ah, disse o rapaz, j parei de ficar tentando descobrir esse tipo de coisa h muito tempo. A Trcia diz que no levo jeito para isso. Talvez ela tenha razo. 
O nico casal que garanto que vai dar casamento  Ted e Cris.
      - E voc e a Trcia, replicou Selena, olhando para a amiga que se encontrava alguns metros  frente, sentada na cadeira e acenando para eles.
      - , eu e Trcia tambm, confirmou ele em voz grave.
      A garota fitou-o e viu uma expresso de ternura se estampar no rosto do amigo. Naquele instante, ele lhe pareceu mais maduro, apesar das gotas de gua nos 
clios e de seu cabelo, num dos lados, estar todo espetado para cima. Nunca o vira assim antes. Selena teve um pensamento claro: Essa  a expresso de um homem apaixonado.
      - Ela  a pessoa mais maravilhosa do mundo! exclamou o rapaz, vendo a namorada levantar-se e aproximar-se dele com uma toalha nas mos.
      Selena teve outro pensamento claro: E agora a est uma mulher apaixonada. Nem acredito! Estou cercada de gente apaixonada!
      - Ei! disse ela, quebrando aquele momento de encanto entre os dois namorados. Cad o resto do pessoal?
      - O Ted comeou a sentir dor no brao, embora a princpio no quisesse confessar. Ento a Cris convenceu-o a ir para casa. Ela disse que queria ligar para 
o hospital para saber notcias do Bob. Acho que queria que o Ted repousasse um pouco tambm, como o mdico recomendou.
      - E minha irm?
      - Ah, ela conseguiu que o Jeremy a levasse para fazer umas compras, explicou Trcia.
      Douglas se enrolou na toalha e abaixou-se para pegar algo para beber, na caixa de isopor.
      - Jeremy fazendo compras?
      - , eu sei, foi a resposta de Trcia. Quer beber alguma coisa, Selena?
      - Quero. Qualquer coisa.
      Douglas entregou-lhe uma lata de refrigerante.
      - Puxa, o Jeremy deve estar mal. No ano passado, ele at foi assistir a um show de patinao no gelo, porque estava apaixonado por uma garota. Mas fazer compras? 
Isso  muito srio!
      - U, qual o problema de ele ter ido ver a patinao no gelo? indagou Selena, deitando-se de bruos para secar as costas.
      -  coisa de criana, explicou o rapaz.
      - Ah, por favor, interveio Trcia, no vamos comear.
      - Antes que Douglas pudesse fazer outro comentrio, um avio publicitrio passou logo acima deles e Trcia indagou: 
      - O que est escrito na faixa?
      Selena virou-se e sentou-se na areia. Protegendo os olhos com uma das mos, por causa do sol, leu em voz alta a propaganda area:
      - No sei o qu "Good Earth".
      - Restaurante "Good Earth", explicou Douglas. Pra mim  uma tima dica. Estou morrendo de fome.
      - Quer ir pra casa? indagou Trcia. A Cris iria gostar muito se voc a ajudasse a convencer o Ted a tomar o remdio e descansar.
      - Claro. Vou sim. Voc quer ir, Selena?
      A garota resolveu que iria esperar Katie e os outros dois rapazes. Ento Douglas e Trcia foram saindo de mos dadas, deixando com ela o isopor cheio de latas 
de refrigerante.
      Vamos ver, ento... principiou Selena, repassando os acontecimentos. Douglas e Trcia esto apaixonados. Ted e Cris tambm esto. Jeremy e Tnia esto tendo 
alguma coisa. Bom, pelo menos esto juntos. Katie est interessada no Antnio, e o Larry disse que a namorada dele vai chegar hoje  noite. S eu estou sobrando 
aqui?
      Permaneceu alguns instantes deitada de costas, resolvendo se iria entregar-se  autopiedade ou no. Procurou consolar-se usando a lgica. Era a mais nova do 
grupo e, alm disso, iria sair com o Ronny na sexta-feira. Pelo menos ia sair com um rapaz, portanto no se achava totalmente esquecida pelos homens.
      Naturalmente a pessoa que ela mais invejava era Tnia. O Ted e a Cris j estavam namorando havia algum tempo. O Douglas e a Trcia haviam iniciado seu romance 
na Inglaterra, e ela testemunhara o fato. Agora era a Katie. Parecia que no poderia haver um cara melhor do que o Antnio para sua amiga. Mas por que Tnia tambm 
tinha de arranjar um namorado assim to depressa? E se a jovem no tivesse vindo? Ser que Jeremy poderia ter se interessado por ela, Selena? O rapaz tinha boa aparncia, 
parecia inteligente e srio. Alm do mais, dava a impresso de ser um bom crente. Ser que ela poderia ter gostado dele? Ou ser que ele a acharia muito nova, como 
Paul? Quando eles estavam voltando da Inglaterra, assim que ela lhe dissera sua idade, Paul se mostrara frio para com ela.
      Selena estava adorando ficar ali ao sol, secando-se e aquecendo todo o corpo. Embora estivesse quieta, ainda tinha a sessao de estar deslizando numa onda. 
Sentira o mesmo numa ocasio em que andara numa montanha-russa. Gostou daquela sensao e sorriu consigo mesma.
      A brisa do entardecer comeou a soprar mais forte, e a garota teve um arrepio. Vestiu sua sada de praia - uma velha camisa branca de seu pai. Arregaou as 
mangas e virou o colarinho para cima, protegendo o pescoo que estava comeando a arder.
      Katie e os dois rapazes j estavam voltando, caminhando pela areia, cada um com sua prancha debaixo do brao. A jovem colocou a prancha de Ted sobre a toalha. 
Seu rosto brilhava.
      - Viu essa ltima que ns pegamos?
      - No. Desculpe. No vi.
      -  Selena! Finalmente consegui ficar totalmente de p na prancha. Foi um marco na minha vida, e voc nem viu?
      - Ns vimos, disse Antnio, meio de gozao. E no foi nada de to espetacular para sair gritando por a no.
      - Antnio, a gente diz  "sair anunciando por a", corrigiu Katie.
      - Ah, voc pode falar "anunciando" se quiser. Eu quero dizer "gritando". Acho melhor.
      Selena no conseguiu conter uma risada. Katie era a nica que no percebia que o rapaz gostava de provoc-la. Ele devia ficar o tempo todo imaginando maneiras 
de embaralhar as expresses idiomticas s para v-la prestar ateno nele.
      - Gisele quer ir jantar hoje naquele restaurante italiano, Spaghetti Factory, disse Larry, olhando para Katie e Antnio. Querem ir conosco?
      Katie olhou para o italiano com expresso meio acanhada. Selena pelo menos achou que era meio acanhada, levando-se em conta o jeito da amiga.
      - Claro, queremos sim, replicou o rapaz, respondendo pelos dois.
      A jovem sorriu para ele e o italiano retribuiu o sorriso. Larry puxou a tampa da caixa de isopor.
      - Pode-se pegar um refrigerante aqui? indagou ele
      - Pode, respondeu Selena, procurando superar os sentimentos de mgoa que a dominaram.
      Eles no a tinham convidado para sair com eles, tinham? Parecia que era um encontro em duplas. Se ela fosse, ficaria sobrando - de novo. Pela primeira vez 
sentiu saudades de Amy, Ronny e das outras amigas de Portland. Lembrou-se daquela tumultuada manh de sbado, quando tinham ido  praa das fontes. Compreendeu que 
nesse momento ela estava como o Snoopy, tentando acompanhar o Brutus, sem conseguir. Talvez algum devesse enfi-la dentro de uma mochila e solt-la s depois que 
o passeio terminasse.
      - Vou para casa, disse Selena.
      - 'T bom. Ns a vemos mais tarde, replicou Larry. Prazer em conhec-la, Celina.
      Selena abriu a boca para corrigi-lo, mas desistiu. Concluiu que no valia a pena.
      Captulo Onze
      
      
      Quando Selena entrou pela porta corredia da rea cimentada nos fundos da casa de Bob e Marta, percebeu certa agitao l dentro. Tnia, Jeremy e Marta estavam 
na sala, e sua irm retirava algumas roupas de uma sacola de compras.
      - Selena, disse ela cheia de entusiasmo, voc precisa ver quantas lojas eles tm aqui. Encontrei tudo em pouqussimo tempo.
      - Aposto que voc gostou disso, disse Selena para o rapaz, fitando-o com expresso de pena.
      - Foi legal, comentou ele.
      Por um segundo, passou pela cabea da garota a idia de que ele deveria ser um rob muito bem construdo. Quando ele dissera "foi legal", ela tivera a impresso 
de que ouvira um sonido metlico em sua voz. Entretanto, ele era um ser humano, sim. Alis... Selena olhou atentamente para Jeremy. Havia algo nele que lhe lembrava 
algum. A boca e os olhos do rapaz pareciam ter alguma semelhana com os de alguma pessoa que ela conhecia.
      - Como  que o Bob est passando? indagou para Marta, fazendo um esforo para tirar os olhos do rapaz e virar-se para a tia de Cris.
      - Est melhor, creio. Eles ainda no decidiram se vo fazer enxerto de pele ou no. Eu queria que decidissem logo. O Bob est sedado e dormindo o dia todo, 
coitado.
      Marta se mostrava bem diferente do dia anterior, quando desmaiara. Achava-se mais calma, mais tranqila. Selena ainda no conseguira chegar a uma concluso, 
se gostava dela ou no.
      - Cad o resto do pessoal?
      - Obriguei o Ted a ir para casa para descansar, explicou Marta, colocando as mos na cintura. Ele est agindo como se nada tivesse acontecido com ele, quando 
na realidade ainda deveria estar internado. Pelo menos no hospital seria obrigado a tomar os remdios e faria repouso.
      - Douglas e Trcia tambm foram embora?
      - Creio que sim. Cheguei agora h pouco, mas a Cris est na cozinha e pode informar melhor.
      Em seguida, Marta se virou para Tnia e disse:
      - Ento, como eu estava lhe dizendo, voc deveria te dito que ia fazer compras. Tem uma pessoa que faz minhas compras pra mim. Eu poderia ter ligado e ela 
faria tudo pra voc.
      Selena saiu da sala e foi para a cozinha. Ali viu Cris e sua me sentadas  mesa. Parecia que estavam tendo uma conversa particular. Ento a garota fez apenas 
um aceno de mo e disse:
      - Vou l em cima tomar um banho.
      - Est bem, replicou Cris. Daqui h pouco vou subir tambm.
      Selena foi ao quarto de hspedes, que estava compartilhando com as outras garotas, e pegou algumas roupas limpas no "seu" caminho. A chuveirada lhe deu uma 
sensao agradvel. Ficou impressionada com a quantidade de areia que viu descer pelo ralo. Mesmo depois de haver terminado, ainda encontrou um pouco de areia no 
ouvido.
      Votou ao quarto, que nesse momento estava bem silencioso. Aproximou-se da janela e ficou a olhar para a praia. J esvaziara bastante. No cu infinito, algumas 
nuvens lembravam gigantescas pores de chantilly, pairando sobre o oceano esverdeado, em constante agitao.
      - Que lindo! exclamou Selena.
      Nesse instante, a porta se abriu, e Katie e Tnia entraram rindo, como se j fossem velhas amigas.
      - Sabe de uma coisa? indagou Katie para Selena. Tnia disse que vai me "produzir" para nosso passeio hoje  noite. Diz ela que vai riscar umas sobrancelhas 
em mim.
      - E eu acredito que ela faz mesmo, comentou Selena.
      - O que voc est querendo dizer com isso? indagou Tnia, em tom meio rspido.
      - Que se existe algum que pode riscar umas sobrancelhas em Katie, esse algum  voc, explicou Selena calmamente, procurando defender-se.
      Por que ser que Tnia sempre "via" uma inteno de crtica em tudo que ela dizia? Selena teve a impresso de que sua irm iria replicar algo mas depois desistiu.
      - Eu s vou tomar um banho rapidinho, disse Tnia para Katie.
      Selena teve vontade de perguntar: "Rapidinho? Desde quando?" mas no falou nada.
      - Vou tomar banho no chuveiro l de baixo, disse Katie, pegando sua mala toda bagunada e tirando algumas roupas. O que voc vai vestir, Selena?
      - Isto aqui, respondeu a garota, olhando para a cala jeans folgada e a camiseta listada que estava usando.
      - No sei o que vou vestir. Voc viu a roupa nova da Tnia?
      Selena viu a irm entrando no banheiro e fechando a porta e forou-se a responder:
      - Vi.  linda.
      - O Spaghetti Factory no  um restaurante chique no. Voc j foi l?
      - No.
      Selena sentiu aumentar sua inquietao com os preparativos para a sada noturna da turma. No tinha certeza se fora convidada ou no. De qualquer modo, a ltima 
coisa que queria era ser a nica ali que estava desacompanhada. Felizmente, nesse momento Cris entrou.
      - Vocs esto falando sobre o Spaghetti Factory?
      - , explicou Katie. Voc e o Ted vo, no vo? Com que roupa voc vai?
      - No vamos no, replicou Cris. O Ted precisa repousar um pouco, e resolvi fazer companhia a minha me e minha tia hoje. Provavelmente iremos ao hospital. 
Mas vocs vo, gente.  um lugar muito legal.
      Cris foi at a mala de Katie e pegou uma blusa.
      - V com essa aqui, disse. Sempre achei que ela ficava muito bem em voc.
      - Voc disse a palavra certa. Ficava. Sabe h quanto tempo tenho esta "relquia"? , tambm estou precisando fazer umas compras.
      - Essa  nova pra mim, comentou Cris. Voc detesta fazer compras.
      - Mas detesto mais ainda ficar com aparncia de desmazelada.
      Imediatamente Selena comeou a pensar o que mais Tnia teria dito a Katie para ter colocado na mente da sua amiga a palavra "desmazelada". Esse era um termo 
tpico de sua irm, que sempre o empregava referindo-se a Selena.
      - Se voc quiser, eu lhe empresto uma das minhas roupas, disse Cris.
      - O que eu queria mesmo era uma saia da Selena, respondeu Katie.
      Selena licou surpresa e bastante satisfeita de ouvir isso.
      Pode pegar o que encontrar a na minha mala, disse imediatamente.
      - Voc trouxe aquela que usou em Belfast? Uma que tem uns fios prateados?
      - Est a, replicou a garota.  s pegar. Eu trouxe tambm um coletinho de debrum prateado que combina com ela. Se quiser pode usar.
      - timo! timo! exclamou Katie, correndo as mos pelas roupas da amiga. Suas roupas so as mais legais que j vi. Adoro suas jias tambm.
      - Pode pegar o que voc quiser!
      - Obrigada, Selena! Que amigona!
      Embora Selena no quisesse confessar em voz alta, interiormente estava ansiosa para ver Katie, toda vestida com suas roupas, chegando perto de Tnia para que 
esta fizesse sua maquiagem. Queria demais ver a expresso da irm.
      - Voc vai com eles? indagou Cris para Selena.
      - No. Eu... principiou ela, sem saber como poderia responder sem dar a impresso de estar com autopiedade. Prefiro ficar por aqui mesmo.
      - Voc no vai se importar de ficar sozinha se formos ao hospital, vai?
      - Ah, do jeito que for est bom pra mim, retrucou.
      Era uma resposta educada, mas que no vinha do corao. O que ela de fato queria era ser convidada para estar num dos grupos, mesmo que fosse o que iria ao 
hospital.
      - Se voc quiser, pode vir conosco, disse Cris, como se estivesse lendo o pensamento da amiga. No vai ter nada de emocionante.
      - No estou procurando nada de emocionante. S quero um convite. Vou aceitar o seu.
      Cris fitou a amiga mais atentamente
      - Tudo bem com voc?
      - Claro! Estou bem! Na verdade estou tima! Aqui  maravilhoso. Adorei ir  praia hoje. A gua estava espetacular. Passei uns momentos bem agradveis.
      Selena sabia que poderia abrir-se com Cris e revelar-lhe o que de fato sentia. Contudo no queria passar  amiga seu sentimento de insegurana e trazer mais 
problemas para ela.
      - Parece que voc se queimou um pouco, comentou Cris, apontando para o prprio nariz. Como no fiquei muito tempo no sol, no cheguei nem a ficar com a pele 
avermelhada. Voc precisava ter me visto na primeira vez em que vim aqui. Foi no vero, e no primeiro dia em que fui  praia fiquei vermelhinha que nem um pimento. 
Por causa daquela brisa fresca, a gente no sente muito o calor do sol quando est deitada l.
      -  mesmo, concordou Selena.
      E antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, ouviram algum bater  porta com a ponta das unhas.
      - Pode entrar! disse Cris, mas a porta se abriu antes que ela terminasse a frase.
      Marta correu os olhos pelo aposento e em seu rosto estampou-se uma expresso de desagrado. Na opinio de Selena, no havia nada de errado com o quarto. Cris, 
porm, deve ter tido uma impresso diferente, pois imediatamente procurou dar explicao.
      - Ns vamos arrumar, tia, disse ela.
      - Ah, no estou preocupada com isso no, comentou Marta.
      Entretanto, com um gesto meio teatral, deu um passo  frente, passando por cima de uma toalha molhada que Selena deixara cada no cho, perto de sua cama. 
Naquele momento, a garota compreendeu que Marta devia ter visto aquele objeto ali jogado como sinal de falta de cuidado.
      - A faxineira vir um dia depois que vocs forem embora, explicou Marta. Por isso no estou preocupada com nada. Cris, eu vim aqui para saber, continuou ela, 
se voc tem alguma preferncia com relao ao lugar onde vamos jantar hoje.
      - Para mim no faz a menor diferena, replicou a jovem. A Selena vai ficar em casa conosco. Voc tem alguma preferncia, Selena?
      - Que tal aquele restaurante de que faziam propaganda na praia hoje, o Good Earth?
      - tima escolha! exclamou Marta, que pela primeira vez tinha um gesto de aprovao, ainda que pequeno, para com Selena. Ento vamos nos preparar para sair 
daqui a mais ou menos quinze minutos.
      - 'T bom, replicou Cris. Estaremos prontinhas.
      - E voc, Selena? D tempo para voc se aprontar, ou acha que devemos marcar para daqui a vinte minutos, em vez de quinze?
      - J estou pronta, replicou a garota, sentindo antipatia por aquela mulher.
      - J? indagou Marta, erguendo uma das sobrancelhas bem feitas.
      Selena ficou sem saber o que responder. Qualquer resposta que desse seria mal-educada. Ela j estava acostumada com as crticas de Tnia em relao ao seu 
gosto para roupas. Contudo achava incrvel que essa mulher, que mal a conhecia, viesse demonstrar sua desaprovao de maneira to bvia. Algumas grases malcriadas 
lhe vieram  mente. Certa vez a me lhe dissera que o fato de tais palavras lhe ocorrerem no era pecado. A maneira como agisse em relao a tais pensamentos  que 
determinaria se estaria pecando ou no. Selena resolveu no se arriscar e deixou que as frases sassem de sua mente com a mesma rapidez com que haviam entrado. E 
quando elas saram, Selena se recordou de algo que Ted havia dito no ptio. Ele dissera que Marta precisava conhecer Jesus.
      - Posso trocar de roupa, disse calmamente, admirada ela prpria com as palavras que lhe vieram aos lbios. A senhora gostaria de sugerir uma roupa mais adequada?
      Marta pareceu ter sido pega de surpresa, pois apenas sorriu e respondeu:
      - Use o que voc preferir, querida.
      Sentindo que seu senso de dignidade estava preservado, Marta virou-se. E no momento em que saa, falou:
      - Ento daqui a quinze minutos nos encontramos l embaixo.
      Cris tinha no rosto uma expresso de espanto.
      - , Selena, eu gostaria de ter sabido, alguns anos atrs, agir como voc, disse. Eu a admiro muito, sabe?
      - , mas voc no me admiraria nem um pouco se soubesse o que estava passando na minha cabea.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Treze
      
      Naquela noite e no dia seguinte, Selena aprendeu algumas lies bem difceis. Descobriu que quando samos para jantar a convite de algum, principalmente se 
esse algum  Marta, o melhor a fazer  ficarmos quietos e calados. Outro fato que ela entendeu foi que quando sua irm e a amiga chegam de um passeio com rapazes, 
 bom fingir que est dormindo.  que enquanto escovam os dentes, elas soltam uma poro de revelaes importantes. E  mais fcil ouvi-las quando ningum est olhando 
para a gente, procurando ver qual  nossa reao, principalmente se elas esto contando que tiveram momentos maravilhosos. Ali deitada, quietinha, a nica coisa 
que Selena poderia fazer era desejar que tambm tivesse ido, acompanhada de um rapaz espetacular, que ficaria o tempo todo ao seu lado.
      Marta marcara uma entrevista para Tnia com o empresrio, na segunda-feira. E no momento em que as duas chegavam de volta, Selena, Cris e Ted tinham acabado 
de voltar da praia e estavam sentados no ptio, com a me de Cris. A jovem relembrou ao namorado, pela segunda vez, que estava na hora de tomar o comprimido.
      Selena acabara de acomodar-se numa cadeira ao lado de Ted quando Marta e Tnia vieram para o ptio. A primeira coisa que a garota pensou foi que da a pouco 
ela tambm teria de "engolir" um "remdio amargo": a notcia de que sua irm se achava a caminho da fama e da glria, pois breve iria iniciar uma carreira de modelo.
      - Antes que algum pergunte alguma coisa, foi logo dizendo Tnia, no vou seguir a carreira de modelo, no.  um trabalho que exige muito da gente. Eu teria 
que me mudar e me dedicar totalmente a essa atividade. No tenho interesse em fazer isso.
      -  mesmo? indagou Selena.
      Sentia-se abismada e no sabia se demonstrara na voz o quanto estava espantada. Nunca tivera a menor dvida de que Tnia possua todos os requisitos para se 
tornar uma grande modelo; e que provavelmente faria muito sucesso na profisso. A verdade, porm, era que sua irm nunca fora de se arriscar muito. No entrava em 
nada, a no ser que estivesse cem por cento convencida de que daria certo. Ela deve ter tido srias dvidas com relao  possibilidade de tornar-se modelo. Os "contras" 
devem ter sido mais fortes que os "prs".
      - O homem disse que ela tem um talento natural, interveio Marta, sem fazer o menor esforo para disfarar sua decepo. Alis, eu j havia percebido isso. 
Talvez vocs possam me ajudar a convenc-la a pensar melhor.
      Ningum disse nada. A tia de Cris ergueu as mos como que se dando por vencida.
      - Est bom, disse ela. Eu tentei. Depois no me digam que no tentei.
      - E eu fico muito agradecida, falou Tnia, mas no  para mim.
      Marta no respondeu.
      - O Bob ligou quando voc estava por l, informou a me De Cris. Falei com ele que iramos para o hospital assim que voc chegasse. Quando voc quiser ento, 
j estou pronta.
      - Tambm estou pronta, replicou Marta. Provavelmente era melhor que eu tivesse passado a tarde toda l.
      Em seguida, ela anunciou para a turma jovem que naquela noite eles teriam de se virar para jantar. E com isso, as duas saram.
      - Jerrey ligou? quis saber Tnia.
      - Ele disse que passaria aqui depois das cinco, informou Ted. Olha, o pessoal vai sair para patinar. Se vocs dois quiserem ir tambm, vai ser legal.
      - Boa sugesto. Mas voc no vai no, vai, Ted? Com esse brao todo enfaixado?
      - , talvez eu no deva mesmo ir, disse o rapaz, com ar de frustrao. Cris vai me encher a pacincia.
      - Por que est dizendo isso? indagou a jovem, com jeito de quem no estava brincando. Voc fala como se eu o estivesse tratando como um bebezinho.
      Selena pressentiu que os dois iam comear a discutir. Tnia pediu licena e entrou em casa. Selena teve vontade de fazer o mesmo, mas o p de sua cadeira estava 
enganchado na do Ted. Para se levantar, teria de afast-la da mesa, e para isso o Ted teria que tirar a dele. E naquele momento ele estava muito envolvido na conversa.
      - E no est?
      - No. No o estou tratando como um bebezinho no, replicou Cris. Estou s me esforando ao mximo para ajud-lo.
      - , eu sei, replicou ele.
      Selena percebeu que se Ted tivesse dito s isso, a discusso teria morrido a, e os dois continuariam com a conversa informal de antes. Contudo ele acrescentou:
      - Igual sua tia.
      O rosto de Cris avermelhou-se.
      - O que voc est querendo dizer com isso?
      O rapaz ergueu o queixo num gesto de teimosia, e replicou:
      - Que posso cuidar de mim mesmo!
      Em seguida, abaixando um pouco a voz, ele olhou para Selena, afastou a cadeira da mesa e disse:
      - D licena. Tenho de ir tomar o remdio.
      E em seguida entrou em casa, batendo a porta conredia.
      Selena sentiu-se meio incomodada. Entendeu que Cris tambm devia estar.
      - Tudo bem a? indagou ela para a amiga.
      Parecia que a outra estava prestes a chorar.
      - D pra entender um negcio desses? Nunca tivemos uma briga assim. Nunca vi o Ted agir desse jeito, disse ela ccom lgrimas a brilhar nos olhos.
      - Ele deve estar sentindo muita dor na queimadursa, replicou Selena. Alm disso, esses remdios provocam alteraes estranhas na gente. Pelo menos a minha 
av teve reaes assim aps a cirurgia dela. Na primeira semana, depois que volrou para casa, dizia uma poro de coisas sem nexo e se irritava com minha me o tempo 
todo. Tenho certeza de que o Ted no queria de fato dizer o que disse.
      - No, Selena. Queria sim. E provavelmente ele est com a razo. Tenho agido igual  minha tia, tentando cuidar dele, O problema  que no tem mais ningum 
pra cuidar. O pai trabalha o tempo todo e a me se casou de novo e mora na Flrida. H muitos anos j que ele est praticamente sozinho.
      - Ah, ento talvez seja difcil pra ele aceitar que algum faa tudo por ele, observou Selena. Ele no est acostumado com sua presena constante ao lado dele.
      - Mas eu no fico com ele o tempo todo, explicou Cris. S nos vemos nos finais de semana. Puxa, e pensei que ramos to unidos, continuou a jovem, limpando 
uma lgrima que lhe escorrera pelo rosto. Acho que nosso relacionamento no est to aprofundado como eu pensava. Selena, no se apaixone por ningum. Atrapalha 
as amizades da gente, at as melhores.
      - , eu posso at estar enganada, disse Selena, mas se vocs s se encontram nos finais de semana, este perodo que esto passando juntos est sendo muito 
bom para vocs. Sabe o que ? Hoje  segunda-feira, portanto vocs esto convivendo mais, e numa situao estressante.
      Cris fez que sim.
      - O que estou querendo dizer  que, com esse problema, os dois esto tendo uma oportunidade de fortalecer o relacionamento. Isso  bom, no ? Quero dizer, 
todo casal tem discusses. Por que voc no vai l conversar com ele? Aposto que podem solucionar esse problema.
      - Creio que voc tem razo, Selena, disse Cris. J conversamos sobre essa questo toda. Desde que voltamos da Europa, temos a sensao de que nosso namoro 
est tipo "conto de fadas". Ento temos dito que queremos que Deus nos ponha  prova para ver se nossa relao  forte e duradoura mesmo.
      Selena sorriu e ps a mo no brao de Cris, dando-lhe um sorrio de leve.
      - Ningum nunca lhe disse para no fazer esse tipo de orao? indagou. Deus sempre a atende, mandando provaes. Parece que  isso que est se passando com 
vocs. Oraram para  que Deus fortalecesse seu relacionamento e olha o que aconteceu.
      - Voc est certa, concordou Cris.
      Fez uma pausa como que se acalmando e depois continuou:
      - Ah, que bom que voc veio! Obrigada por ter vindo, Selena. Sabe, estou muito agradecida por sua palavra de incentivo. Como  que voc consegue ter tanta 
sabedoria assim?
      - Uma coisa lhe garanto, no foi com experincias pessoais de namoro no, replicou Selena, brincando.
      - Sua vez vai chegar, falou Cris, levantando-se com gestos graciosos. Mas no tenha muita pressa de passar por isso no, 't?
      - Como se fosse eu quem decidisse! resmungou Selena, enquanto Cris entrava na casa, deixando-a a ss no ptio.
      Felizmente, alguns minutos depois Katie apareceu ali perguntando se Selena queria ir, de tardinha, patinar com a turma. A garota disse que queria. Ted e Cris 
preferiram ficar, dizendo que iriam jantar com o pai do rapaz. Pela expresso do rosto deles, percebia-se que ainda no haviam acertado suas divergncias. A turma 
alugou patins do tipo roller em uma lojinha que havia prxima do cais. Em seguida foram saindo, cada um com seu acompanhante, deslizando pela calada em frente s 
casas. Selena viu Jeremy estender a mo para Tnia e esforou-se para manter o nimo elevado. Douglas amarrou os patins de Trcia para ela e depois saram patinando. 
Selena sorriu ao ver o quanto Gisele era mais baixa que Larry. Katie, por seu lado, estava discutindo com Antnio, dizendo-lhe que "tablado" era outra coisa. O lugar 
onde estavam patinando chamava-se "calada".
      Selena tentou encontrar algum que lhe fizesse companhia. Recordou os tempos de criana, quando batiam "par ou impar" para formar os times da meninada. Havia 
sempre alguns que ficavam para o fim, que ningum queria muito. Isso nunca lhe acontecera. Ela sempre era a capit, sendo quem escolhia os companheiros de time. 
Por um segundo, pensou que um dia deveria escrever uma cartinha, pedindo perdo s crianas menos habilidosas, que ela sempre deixava por ltimo.
      - Est pronta? Vamos l? disse ao seu lado algum em tom amistoso.
      Era Helen, uma garota magrinha, meio acanhada, que fazia parte da turma. Seu cabelo fino, muito louro, estava cado no rosto, ao sopro da brisa do entardecer. 
Helen afastou algumas mechas da boca e indagou:
      - Seu nome  Selena, no ?
      - , e voc  Helen? 
      Ela fez que sim.
      - Aposto que voc  craque nisso, disse a moa. No  exatamente o que mais gosto de fazer. Ento se eu comear a dar uns foras aqui, no me espera, no, viu? 
Vai em frente que no me importo no.
      - Pois acho que voc vai se sair muito bem, falou Selena.  mentalizar que tem de ir deslizando. No levante muito os ps no. Isso! Exatamente! Vamos l. 
Ainda d para alcanar aqueles "campees" ali.
      E nas duas horas que se seguiram, Selena se divertiu bastante, rindo muito com Helen. Foram seguindo atrs dos casais de namorados e Selena exibiu toda a sua 
habilidade patinando de costas. Houve um momento em que quase deu um encontro num homem que caminhava com um cachorro. Contudo no ltimo minuto conseguiu inclinar-se 
bem e desviou-se dele. Estava gostoso sentir o vento batendo em sua pele queimada de sol. Sabia que seu cabelo estava ficando todo embaraado, mas no se importava.
      Ao final, Selena chegou  concluso de que realmente tivera um dia memorvel. Pela manh, tentara aprender a surfar e conseguira ficar totalmente de p durante 
uns trs segundos, caindo em seguida. Pensara em fazer outras tentativas, mas seus ombros estavam doendo um pouco e, afinal de contas, ainda teria outros dias.
      Depois de devolverem os patins, resolveram ir  ilha Balboa, para comer cachorro-quente numa lanchonete de que o Douglas gostava muito. Selena foi no carro 
de Larry, junto com Katie e Antnio, no banco de trs. No fim, descobriram que a lanchonete era apenas uma pequena barraca, tipo trailer, onde s vendiam cachorro-quente, 
banana gelada e o famoso esquim de Balboa - um picol de creme com uma "capa" de chocolate. Trcia gozou do Douglas, dizendo que ele era mesmo um excelente gourmet. 
Instantes depois, todos os outros se puseram a rir do rapaz pois ele pediu seis cachorros-quentes, tamanho grande. E no teve a menor dificuldade para devorar todos 
os seis. E ainda pediu sobremesa.
      Selena tambm conseguiu comer um cachorro-quente dos grandes, mas depois se deu conta de que fora demais. Nem quis sobremesa. Assim que todos terminaram o 
lanche, foram caminhando pela rua, que s tinha lojas. Ficaram a olhar as vitrines, rindo e brincando o tempo todo.
      Selena resolveu caminhar ao lado de Katie e Antnio. Em dado momento, sorriu, ao ver o rapaz passar o brao sobre os ombros da amiga. Contudo o gesto dele 
fez com que ela de novo se sentisse deslocada. Era verdade que os dois, durante a conversa, volta e meia se viravam para ela e pareciam estar achando bom que ela 
estivesse junto com eles. Entretanto notava-se que, ao que tudo indicava, eles estavam mesmo firmando o namoro, como sua irm e Jeremy, que caminhavam com o brao 
um na cintura do outro.
      No outro dia, bem de tarde, Ted e Cris foram para a praia, onde o grupo se encontrava. Selena no saberia dizer se eles j haviam resolvido o problema criado 
com a discusso do dia anterior. A garota resolvera usar um bon para proteger o rosto do sol, pois seu nariz comeara a descascar. A aba dele lhe atrapalhava um 
pouco a viso. No estava conseguindo ver direito o casalzinho. Tinha esperanas de que tivessem acertado tudo.
      Nesse momento, Douglas e Antnio saram da gua e vieram para onde os outros se encontravam. Cada um estava com sua prancha debaixo do brao. Douglas soltou 
a dele no cho, ao lado de Trcia, e com isso espirrou um pouco de areia na namorada. Imediatamente ela se levantou, pondo-se a limpar os olhos.
      - O que foi? indagou Selena.
      - Acho que caiu areia no meu olho, respondeu ela. Olhe aqui pra mim.
      - Olhe l! gritou Douglas. Est chegando!
      Todos ouviram o rudo de um aviozinho se aproximando. Selena chegou mais perto de Trcia, erguendo a aba do bon para que no batesse na testa da amiga.
      - Tente abrir os olhos, disse.
      Trcia piscou rapidamente e respondeu:
      - Estou sentindo a areia. Est no olho direito.
      - Trcia, disse Douglas. Olhe pra cima. Voc precisa ver esse avio.
      - Espere a, replicou ela. Tem um cisco no meu olho.
      - Olhe pra esquerda, falou Selena.
      - Quer um colrio? indagou Helen. Tenho aqui.
      - J vi, informou Selena. Est encostado na plpebra de baixo. No pisque.
      O barulho do avio ficou mais forte.
      - Anda, Trcia, disse Douglas. Voc tem de olhar!
      A o Ted tambm se ps a gritar para ela.
      - Trcia, olhe para o avio!
      - Espere, gente! gritou ela, pegando o colrio da mo de Helen.
      Mais duas garotas vieram para perto dela, querendo ajudar a resolver o problema.
      - Ele vai passar e voc no vai ver, berrou Douglas.
      E com isso ele se aproximou da namorada, puxou-a pelo brao e disse:
      - Olhe l!
      Trcia ficou piscando e, bastante irritada, retrucou:
      - O que  que voc est fazendo, Douglas? Tem um cisco no meu olho!
      - Olhe para a faixa um segundo s! gritou Ted.
      - Trcia, leia a faixa! falou Larry.
      Selena ergueu o rosto para ver por que os rapazes estavam to agitados. O aviozinho j estava acabando acabando de passar por eles, mas ainda deu para ver 
o que estava escrito na faixa:
      "Trcia, quer se casar comigo?"
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Quatorze
      
      Na mesma hora, todo mundo rodeou o casal. Trcia estava chorando e Douglas ps o brao, ainda molhado, no ombro dela. Pegou sua camiseta e ofereceu  namorada 
para que ela enxugasse as lgrimas, mas a jovem preferiu a ponta da prpria camiseta tamanho grande, que usava como sada de praia.
      - Agora voc j sabe o que eu estava conversando com seu pai no domingo, comentou o rapaz. E ele aprova totalmente.  claro que sua me tambm aprova. E meus 
pais tambm.
      - Oh, Trcia, estou to alegre por voc! disse Helen, infiltrando-se no bolo de gente e abraando a amiga.
      - Espere a, Helen! interveio Douglas. Ela ainda no disse "sim".
      Todos ficaram em silncio, abrindo um pouco o crculo para dar mais espao para o casal. Trcia olhou para o namorado, ainda com lgrimas a escorrer-lhe pelo 
rosto.
      - Bem, principiou ela, pelo menos a areia saiu de meu olho.
      Douglas ficou a olhar para ela pacientemente, aguardando a resposta. Selena pensou se o pessoal que estava na praia, olhando para eles por causa da agitao 
do grupo, sabia o que estava se passando ali. Douglas no se importava nem um pouco de saber que havia gente olhando. Ficou parado, feito uma rocha, no arredando 
p enquanto Trcia no desse a resposta que ele e todos os outros aguardavam.
      A jovem relaxou a expresso facial. Fitou o namorado direto nos olhos e, aproximando dele seu rostinho redondo, sussurrou:
      - Sim, mil vezes sim... seu grande bobo!
      Em seguida, deu um tapinha de leve no peito dele e indagou:
      - E se eu no tivesse olhado para o avio?
      - Acho que eu ia ter de pagar o cara para passar amanh novo ou ento teria de procurar uma outra Trcia na praia que estivesse olhando para ele, replicou 
Douglas.
      Ele passou o brao em torno dela e os dois se abraaram.
      - Ele no vai beij-la? cochichou Tnia para Selena.
      Quem respondeu foi Jeremy:
      - No, s no dia do casamento.
      - Quer dizer que eles nunca se beijaram?
      - Douglas nunca beijou ningum, explicou Selena.
      - 'T brincando! exclamou a jovem. Ser que ele no est exagerando um pouco nesse negcio de pureza?
      - Trcia acha que no, respondeu Selena prontamente. E eu tambm no.
      - Ah, voc no tem condio de saber dessas coisas, falou Tnia. Nunca beijou.
      Selena sentiu o rosto avermelhar-se e teve vontade de sumir. Como  que Tnia dizia isso em frente de seus amigos? Uma raiva surda comeou a fervilhar dentro 
dela. Uma coisa era um jovem resolver que nunca iria beijar ningum, como fizera o Douglas. Outra muito diferente era a irm da gente anunciar para todo mundo que 
nenhum rapaz a beijara, nem ao menos tentara faz-lo.
      A garota se sentiu deslocada naquela turma. Todos ali estavam estudando em alguma faculdade, e cada um j tinha seu namorado ou namorada. Sua sensao era 
de que parecia uma criana, destoando totalmente dos outros. Teve vontade de estar em casa naquele momento, fazendo os planos para o grande encontro com Ronny e 
esperando a hora de amadurecer.
      -  aqui, bem, disse uma voz masculina atrs da roda de amigos.
      Era um homem com uma filmadora na mo, tendo na cabea um bon azul. Ao lado dele, estava uma senhora loura que correu para Trcia e abraou-a. Ao que parecia, 
eram os pais da jovem e estavam por dentro de tudo.
      - A senhora viu o avio, me? indagou Trcia.
      - Claro. Seu pai filmou tudo. Ns tambm quase viemos correndo aqui, gritando para voc olhar para cima.
      Um outro casal se aproximou. Obviamente eram os pais de Douglas, pois o homem se parecia demais com o rapaz. Eles pediram a todos que sorrissem, e a me de 
Douglas se ps a bater fotografias. Em meio a muitos abraos, outros tambm foram tirando fotos. Depois de alguns instantes, os namorados sapiram com seus pais, 
e a me de Trcia explicou que iam para um "jantar de comemorao".
      - Quando ser que eles vo se casar? indagou Katie, depois que a agitao cessara e todos estavam de novo sentados em cadeiras ou toalhas.
      - Pela vontade de Douglas, deve ser muito breve, respondeu Ted sorrindo. Ele vai se formar daqui a alguns meses.
      - Voc tambm, falou Katie, dando uma indireta.
      Piscou rapidamente para Cris e continuou:
      - Alguma possibilidade de haver um casamento duplo?
      Ted olhou carinhosamente para a namorada.
      - No, no, disse. Acho que no, respondeu.
      Selena observou que Cris no se mostrou nem um pouco transtornada com a resposta dele, e ficou a imaginar com teria ido resolvida a discusso deles, do dia 
anterior. Ted esticou o brao e colocou sua mo sobre a de Cris.
      - Ainda tenho de amadurecer um pouco, confessou ele para a turma. Eu e a Cris conversamos muito sobre isso ontem. Voc se importa se eu contar para eles? perguntou 
a ela.
      Cris abanou a cabea. Selena achou que o rosto da jovem se avermelhou um pouco.
      -  melhor contar logo, interveio Katie. Seno terems de obrigar Cris a revelar tudo, hoje  noite, sob a ameaa de uma guerra de travesseiros. E como ela 
no gosta muito disso, o melhor pra ela  que voc conte tudo.
      - Desde que meus pais se divorciaram, tenho vivido praticamente sozinho. O acidente do outro dia teve um lado positivo: entendi que preciso aprender a aceitar 
o amor de outra pessoa.
      - E essa pessoa, ao que tudo indica,  a Cris, observou Katie, com seu jeito espirituoso.
      Ted deu outro sorriso terno para a namorada.
      - Claro que . No existe outra pessoa em minha vida. Alis, nunca existiu.
      Selena teve a sensao de que seu corao iria derreter e escorrer para a areia. Ento ela teria de recolh-lo, jogar na toalha, lev-lo para casa e coloc-lo 
no congelador para depois voltar com ele para dentro do peito. No conseguia imaginar um rapaz olhando para ela daquele jeito e lhe dizendo tais palavras.
      - Ento, depois que me formar, vou me mudar para Escondido, ou para um lugar prximo, para que eu e Cris possamos nos conhecer melhor. Nossa relao sempre 
foi muito fragmentada. Ns nos encontrvamos por algum tempo, depois passvamos longos perodos afastados um do outro. Precisamos ver como  que nos comportaremos 
no relacionamento do dia-a-dia.
      - , interveio Larry, mas isso vocs s vo ter depois que se casarem, no ? Qual  o problema, Ted? Est com medo de se arriscar?
      Selena percebeu que no fora a nica que j tomara por certo que Ted e Cris algum dia acabariam se casando. Parecia que todos os outros eram da mesma opinio.
      - Se seus pais fossem divorciados, provavelmente voc no diria isso, replicou Ted. Como eu disse, ainda tenho que aprender algumas lies, como por exemplo, 
amar uma pessoa pelo resto da vida e deixar que ela me ame tambm. Vivi muito tempo sozinho.
      A princpio, ningum fez nenhum comentrio. Todos percebiam que ele estava falando srio. Isso fez com que Selena sentisse o quanto era profundo o amor do 
rapaz por Cris. Ele queria que tudo desse muito certo entre eles. Para no cometer nenhum erro, estava disposto at mesmo a atrasar um pouco o casamento.
      - Eu dou seis meses no mximo para ele fazer o pedido de casamento, disse Larry.
      Cris olhou timidamente para o namorado.
      -  isso mesmo! exclamou Katie, aproximando-se do rapaz e batendo a palma da mo com a dele, num "toque aqui!"
      - Bate aqui! disse Antnio, erguendo a mo para Katie.
      - "Bate aqui!" no, falou a jovem corrigindo o italiano. Toque aqui!
      - Ah, bom, deixa pra l! Vamos tomar refrigerante, retrucou o rapaz, rindo. Pegue um pra mim, o.k.? Mais algum a est com sede? Larry? Gisele? O que vocs 
querem? Katie vai pegar pra ns.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Quinze
      
      No dia seguinte, pela manh, Selena teve muito tempo para pensar. Hoje e amanh seriam os dois ltimos dias do passeio, e ainda estava muito confusa interiormente. 
No resolvera nada com relao a Tnia. Na noite anterior, quando sua irm e Jeremy tinham sado para dar um longo passeio na praia, sua inveja aumentara mais.
      A sensao de que estava deslocada ali tirou-lhe o sono. No dormiu bem e acordou s 6:00h. Vestiu-se silenciosamente e desceu. Serviu-se de um copo de suco 
de laranja e em seguida sentou-se no confortvel sof branco da sala. Ali ficou a olhar para fora, pelas imensas janelas, contemplando o amanhecer. Orou um pouco. 
Pensou mais um pouco. Tomou alguns goles do suco e orou mais. Instantes depois ouviu passos leves descendo a escada. Olhou para a porta e, com surpresa, viu que 
era Cris.
      - Oi! disse a amiga cochichando.
      - Oi!
      - Estou atrapalhando?
      - De jeito nenhum, replicou Selena. Estava apenas orando a respeito de alguns problemas.
      - Voc se importa se eu lhe perguntar uma coisa? Indagou Cris, sentando-se ao lado dela. Um desses problemas  Tnia? 
      - . Como foi que adivinhou?
      - Como no tenho irm, nunca passei pelos problemas que voc e a Tnia tm. Mas acho que tem hora que entendo o que voc est sentindo.
      - Tenho inveja e cimes dela, disse Selena sem rodeios. Entendo muito bem qual  o problema e tenho conscincia de que estou errada. Mas no sei como posso 
me corrigir. Eu me esforo muito para mudar meus sentimentos e pensamentos, mas eles voltam sempre. E esto cada vez mais fortes.
      - Entendo como  isso, falou Cris.
      -  difcil acreditar que voc possa ter cime de algum, comentou Selena.
      - Voc ficaria espantada se soubesse de tudo. Ah, vou lhe contar.  a Trcia.
      - Trcia?
      - Eu mesma quase nem acredito hoje, continuou Cris. Quando a conheci, ela e o Ted eram muito amigos. Tive muito cime dela. Os dois me deram uma Bblia de 
presente de aniversrio, e eu quase a joguei na cara da Trcia. E ela at havia feito uma capa de pano para a Bblia. D pra acreditar numa coisa dessas?
      - No, replicou Selena. Quando conheci as duas na Inglaterra, vocs pareciam to amigas! Davam a impresso de que nunca haviam brigado.
      - , Selena, desenvolver um relacionamento exige tempo.  isso que eu e o Ted estamos compreendendo agora. Acho que a principal lio que estou aprendendo 
 que nem adianta a gente ficar se esforando muito. Lembra quando o Ted disse aquele dia que eu estava igual  tia Marta, porque estava me empenhando ao mximo? 
Pois , a nica opo que d certo  entregar tudo para Deus. A gente tem de abrir mo de nossos direitos e expectativas para o relacionamento e pedir a ele que 
faa uma "coisa de Deus".
      - Foi assim no seu relacionamento com a Trcia?
      - Creio que sim. Mais ou menos. O que mais ajudou foi que depois pude conhec-la melhor. Entendi que ela e Ted eram apenas bons amigos. E depois que passei 
a compreend-la mais, foi fcil fazer amizade com ela.
      - Sabe o que  mais triste nisso tudo? indagou Selena. No conheo bem minha irm. Quer dizer, moramos sob o mesmo teto, mas no a compreendo nem um pouco. 
Talvez eu tenha que orar de maneira diferente sobre esse problema todo. Em vez de ficar pedindo a Deus para mudar a Tnia, eu devo  colocar meu relacionamento com 
ela nas mos do Senhor   e pedir que ele faa... como foi que voc disse?
      - Uma "coisa de Deus". Foi a Katie que inventou essa expresso. Significa que quando acontece um fato que a gente no sabe explicar, foi Deus que fez.
      - Ah, como o que aconteceu com voc e o Ted? Quando os dois se encontraram na Espanha?
      - Isso mesmo! replicou Cris, dando um sorriso.
      Selena notou naquele momento que sua amiga possua uma beleza natural. Era cedo de manh, e os olhos dela brilhavam. A pele era sedosa. Embora seu cabelo estivesse 
despenteado, caa em ondas leves e naturais.
      - Obrigada, disse Selena. Agradeo muito seu conselho. 
      - E sabe o que  mais engraado? O Ted costumava me falar dessas realidades espirituais, mas eu no conseguia entender bem o que ele estava dizendo. Voc hoje 
tem mais discernimento espiritual do que eu tinha na sua idade.
      As palavras de Cris, porm, foram como um jato de gua fria, pois lhe relembraram que ela era trs anos mais nova que a amiga. Voltou a experimentar a sensao 
de estar deslocada no meio daquele grupo. E ela deve ter demonstrado isso no semblante, pois Cris deu-lhe um tapinha no brao e comentou:
      - Ei! Isso foi um elogio!
      Selena deu um sorriso meio forado e respondeu:
      - , eu sei. Obrigada. A questo  que durante esta semana que estou passando na companhia de vocs, venho me sentindo meio infantil. Na Inglaterra, no tive 
essa mesma sensao. Mas agora estou percebendo que fico bem atrs de vocs em idade e experincia.
      - Eu no vejo isso assim.
      - Sei l, Cris. Voc j teve a impresso de estar meio perdida, com a sensao de que tem duas vidas? Uma  a que voc est vivendo e a outra a que gostaria 
de ter?
      - Acredito que em certa fase da vida todos ns passamos por isso. Tive esse problema uns dois anos atrs, quando trabalhei como conselheira num acampamento. 
Quando fui para l, lava sonhando com novidades: aventuras, romance e grandes vitrias espirituais. Quando voltei, ansiava pelas pessoas e lugares j conhecidos 
e queria que as rotinas da minha vida no mudassem nunca.
      - Cris, voc acha que a gente  contente com a vida? Indadou Selena, dando uma olhada para o sol que nascia, lanando seu claro sobre o mar e a praia.
      - No, replicou a outra prontamente. Mas quero aprender a ser. O versculo que estou decorando este ms e tentando aplicar em minha vida  "De fato, a piedade 
com contentamento  grande fonte de lucro". Est em 1 Timteo 6.6.  muito interessante, no?
      A jovem pegou uma poro do seu cabelo e atirou para trs. Depois continuou:
      - Creio que ambas estamos aprendendo a mesma lio: a ficar contentes com a vida que temos.
      - O que mais me surpreendeu esta semana foi ver como avida da gente pode ser complicada. Um exemplo  voc e o Ted. Eu achava que minha vida seria melhor se 
eu tivesse um namorado. Mas depois percebi que vocs dois ainda tm um bocado de coisas para resolver e que isso consome muito tempo e energia. Quero dizer, voc 
j tem namorado e mesmo assim sua vida ainda tem algumas complicaes.
      Cris riu baixinho.
      - Certa vez o tio Bob me disse o seguinte: "Se voc acha que o gramado do vizinho  mais verde que o seu, procure irrigar o seu."
      Selena riu.
      -  isso mesmo, n? comentou ela. Aqui estou eu, vendo cada um levando sua prpria vida e querendo estar no "gramado" de vocs. Voc tem razo, Cris. Vou orar 
e pedir a Deus que me ensine a viver assim: ter piedade com contentamento e ficar mais ligada no meu "gramado".
      - Sem se esquecer de molh-lo, acrescentou a jovem.
      - , concordou Selena, e molhar meu gramado.
      Por alguns instantes, as duas permaneceram sentadas em meio ao silncio do imenso cmodo. O resto do pessoal ainda no comeara a levantar. Naquele instante, 
Selena compreendeu o quanto sua amizade com Cris era profunda. As duas ficaram ali caladas por uns momentos, e no se sentiram nem um pouco incomodadas por isso. 
A nica pessoa com quem gozava esse mesmo tipo de intimidade era V May.
      - Voc poderia orar por mim? indagou ela afinal. Minha me e V May sempre oram conosco, e, bom, acho que seria legal a gente orar agora.
      - Claro, disse Cris.
      Elas fecharam os olhos e fizeram oraes sinceras, louvando a Deus e apresentando a Ele suas peties, no incio desse novo dia. Selena orou, entregando ao 
Senhor o cime que tinha da irm, e pediu-lhe que fizesse uma "coisa de Deus" entre ela e Tnia. Cris intercedeu pelos seus tios e depois, juntas, elas oraram em 
favor de Ted e tio Bob, para que ambos se recuperassem prontamente.
      Quando Selena estava dizendo "Amm", ouviram passos. Algum descia a escada. As duas se viraram. Era tia Marta, vestida com um robe roxo, de seda.
      - Que  que vocs duas esto fazendo acordadas to cedo?
      Selena j ia responder: "Conversando", mas Cris se adiantou e disse:
      - Orando.
      - Ah, Cristina, deixa de brincadeira.
      - No  brincadeira, no, tia. Estamos orando pela senhora e pelo tio Bob, explicou a jovem.
      Marta pareceu no dar muita ateno  explicao dela e virou-se para a cozinha.
      - Vou fazer caf, disse. Voc toma caf, Selena?
      - No, mas tomo ch, se a senhora tiver a.
      - Eu tambm, ajuntou Cris. Ns vamos fazer, tia. Alis, podemos fazer o caf tambm. Pode voltar para o quarto, tia Maria. A gente leva o caf para a senhora.
      - Ah! exclamou Marta, com ar de agradvel surpresa. Agora entendi o que eles querem dizer quando afirmam que "a orao resolve tudo", comentou ela, sorrindo 
da prpria piada. Vou subir. Cris, seria bom levar caf para sua me tambm. Ela vai voltar pra casa hoje, j que o Bob receber alta.
      - Ns vamos levar, tia, respondeu Cris, conduzindo Selena para a cozinha.
      A jovem pegou a vasilha com o caf torrado, mas ficou sem saber direito o que deveria fazer a seguir.
      - Voc sabe onde ela guarda o moedor? indagou Selena.
      - No tenho certeza. L em casa, meus pais s tomam caf instantneo. No sei mexer com isso.
      - Ento deixa comigo, interveio Selena. V May ensinou-me a fazer um caf espetacular. Ento voc faz o ch, 't bem?
      E as duas puseram mos  obra, procurando os saquinhos de ch e o moedor de caf. Enquanto o caf ia coando, Selena pegou uma leiteirinha e o aucareiro, colocando-os 
numa bandeja.
      - Vamos preparar algumas frutas, sugeriu Cris. E aquele pozinho especial deve estar no freezer. , est aqui mesmo. Vamos levar caf na cama pra todo mundo.
      Quinze minutos depois, as duas subiam a escada, carregando cuidadosamente duas bandejas cheias e reprimindo a vontade de de dar risadinhas. Quando estavam 
preparando aquela "oferta de amor" na cozinha, tudo fora motivo de riso para elas. Cris at tirara flores de um buqu que havia na sala e colocara em copos - um 
"vaso" de flor em cada bandeja.
      - Servio de copa! disse Cris alegremente, abrindo a porta do quarto da tia.
      A tia voltara a deitar-se e as roupas de cama estavam arrumadas, bem esticadas. Selena lembrou-se de V May, com a diferena de que esta no teria dito o mesmo 
que Marta.
      - Por que demoraram tanto? indagou ela. Espero que tenham trazido leite desnatado.
      - Est tudo aqui, tia, explicou Cris pacientemente, colocando a xcara de caf, o acar e o leite sobre a mesinha de cabeceira. Quer uma fruta ou um pozinho?
      - No. Sua me est tomando banho no meu chuveiro, ento pode deixar o dela aqui tambm. Para quem so essas outras coisas?
      - Ns resolvemos servir o caf na cama para todas as mulheres da casa, falou Cris ainda sorrindo. Tem certeza de que no quer nada, nem uma fruta?
      - Ah, talvez uma fatia de melo.
      As outras tiveram uma reao mais simptica. Quando Tnia recebeu sua xcara de caf das mos da irm, comentou:
      - Humm! O cheiro est maravilhoso! Obrigada! Os rapazes j ligaram?
      - Que eu saiba, no, informou Selena. Ainda  cedo.
      - Jeremy quer me levar a um restaurante de Laguna Beach, de que ele gosta muito. Acho que vamos ficar fora o dia todo.
      - Parece que vai ser bom! comentou Katie.
      - Ele  to incrvel! continuou Tnia, bebericando o caf e parecendo estar ainda na terra dos sonhos. Nem acredito que conheci esse rapaz.
      Selena percebeu que suas emoes j iam comear a agitar-se quando ouviu Cris dizer:
      - O que  que voc mais gosta nele?
      - Ah, voc o conhece, Cris. Ele  uma pessoa de opinio forte, mas ao mesmo tempo tem certa sensibilidade com relao a muitas coisas. Alm disso,  um bom 
crente, portanto profundamente diferente dos caras em quem estive interessada ultimamente. Ele me trata de igual para igual, mas ao mesmo tempo tem alguns gestos 
em que d a entender que gosta de mim.
      Selena j ia fazer um de seus comentrios meio malcriados, mas algo a deteve. Talvez o Esprito Santo. Naquele instante, reconheceu que se fosse Katie que 
estivesse falando sobre Antnio, ou ento Cris dizendo algo sobre Ted, logo faria uma poro de comentrios positivos, para demonstrar s amigas que estava feliz 
por elas terem namorados to legais. Por que no agir da mesma forma com a irm?
      - Que bom, Tnia, disse ela, com expresso e tom sinceros. Fico alegre de saber disso.
      - Fica mesmo?
      - Fico sim. Acho que o fato de voc ter conhecido Jeremy e tudo o mais, foi como ter realizado um sonho. Estou muito feliz por isso.
      - Obrigada, respondeu Tnia.
      Selena deu uma espiada para Cris com o canto do olho e percebeu que a amiga lhe dera uma piscadela. Era a forma como a jovem a congratulava por aquela vitria, 
alis, uma grande vitria.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Dezesseis
      
      O resto do dia foi transcorrendo rapidamente. A me de Cris voltou para casa. Marta foi com Cris e Ted ao hospital para buscarem o Bob. Por volta de 11:00h, 
Tnia e Jeremy saram para o "falado" almoo.
      Selena e Katie foram para a praia e ficaram por l com o restante da turma. Douglas e Trcia no apareceram. Helen informou que eles passariam o dia envolvidos 
com seus planejamentos.
      A certa altura, Selena lembrou-se de que deveria "molhar o prprio gramado" e decidiu esforar-se ao mximo para aprender a surfar. Criou coragem e pediu emprestada 
a j surrada prancha alaranjada do Ted. Depois, nas duas horas seguintes, ela se empenhou no esporte. Vrias e vrias vezes foi "remando" com os braos mar a dentro 
para pegar as ondas. E mesmo quando sentiu que eles comeavam a ficar doloridos, continuou persistindo nas tentativas. Afinal conseguiu pegar uma boa onda, subir 
na prancha e manter-se equilibrada sobre ela at chegar na areia. Ningum viu nada. Ningum estava ali para aplaudi-la. Contudo reconhecia que conseguira fazer algo 
que sempre desejara. Ao constatar isso, sentiu algo "tremendo", como diria Douglas.
      Voltou para a praia e descansou um pouco, tirnando um cochilo deitada na areia. Alguns instantes depois, cgamou Antnio para jogar bola com ela. Calaram uma 
luva espoecial, forrada de velcro, e ficaram a atirar a bola um para o outro, agarrando-a com a luva. Katie pegara a prancha de Ted, fora para a gua e estava se 
esforando muito para surfar. Selena resolveu criar coragem e pedir a prancha do Antnio emprestada. Pegoua e entrou no mar com ela. A ficou parecendo uma profissional 
- boiando por ali ao lado de Katie, esperando que comceassem as ondas da tarde.
      As duas se puseram a conversar, enquanto boiavam ou "remavam", rindo muito. Em dado momento, Selena compreedeu que nunca mais se esqueceria daquele dia, no 
porque algo de espetacular houvesse acontecido, mas porque se sentia completamente feliz. Seu corao parecia leve, renovado. Alm disso, adorava aquela sensao 
de liberdade que o mar lhe proporcionava.
      Katie comeou a falar sobre Antnio. Selena resolveu contar-lhe sobre Ronny e o encontro que teriam na sexta-feira.
      - , voc escolheu bem a flor para o ramalhete, comentou a amiga. Na festa da minha formatura de segundo grau, meu acompanhante me deu um cravo verde, gozadssimo. 
Mais parecia um p de alface.
      - No sei por que pedi rosas cor-de-pssego. Deveria ter pedido branca. O branco combina com qualquer roupa.
      - , mas pssego tambm  uma cor neutra e muito bonita. Verde, por exemplo, no combina com quase nada. A noite da minha festa foi horrvel. Sabe de uma coisa, 
Selena? Se eu soubesse, quando estava no segundo grau, que o curso da faculdade ia ser to legal, no teria ficado to obcecada em arranjar um namorado naquela poca. 
Ento, procure se divertir, mas no fique muito preocupada em ter um namoradinho. Talvez acabe tendo lembranas desagradveis dessa poca.
      - , replicou a garota, vou procurar guardar isso na cabea.
      - Olha s! gritou Katie, posicionando-se na prancha. L vem a onda que estvamos esperando.
      Em seguida, saiu "remando" apressadamente, com Selena logo atrs. Katie foi mais gil. Conseguiu pegar a onda, ficou de p na prancha e foi surfando at  
praia. Selena se ps a olh-la, parada, esperando que surgisse uma nova onda grande. E ali pensativa, viu que isso tinha um certo simbolismo. Katie era mais velha 
que ela e, portanto, estava  sua frente na vida e merecia pegar a onda. Naquele momento, a garota no se importou de ter de ficar s olhando e de esperar um pouco 
mais pela sua onda ou pela sua hora de namorar.
       tardinha, quando a turma toda se reuniu na praia, em volta de uma fogueira, ela teve mais oportunidades de ficar s olhando e esperando. Foi Cris quem escolheu 
o local de fazerem a fogueira, um determinado ponto da praia. Todos foram logo estendendo velhos cobertores no cho para se sentarem. Os rapazes fizeram a fogueira. 
Alguns comearam a brincar com o Ted, dizendo que era melhor ele pegar logo uma toalha para cobrir o brao caso o fogo se alastrasse. Selena no achou graa nenhuma 
na piada, j que estivera no local do acidente e presenciara tudo. Contudo agora o problema j estava superado, pois Ted passava bem e Bob j voltara do hospital. 
Cris informou-lhes que o tio fora direto para a cama. Disse ainda que ele convidara a turma toda para tomar o caf da manh com ele, no dia seguinte. Portanto devia 
estar se sentindo muito bem.
      O sol estava se pondo em grande estilo, quando todos se aproximaram mais da fogueira. Selena ficou satisfeita de ter vestido um bluso de moletom. Sentou-se 
perto de Cris, que esticou uma parte de seu cobertor para que a garota se acomodasse.
      - Algum quer assar marshmallow? indagou Cris.
      Um coro de vozes alegres respondeu positivamente.
      - Ento cada um faa seu prprio espeto. Pegue um cabide e estique-o, continuou a jovem, pegando uma poro de cabides e distribuindo-os entre o pessoal.
      Ted estava sentado do outro lado da namorada, bem na direo da fumaa. Ficou ali s uns dois minutos e depois deu a volta, colocando-se ao lado de Selena.
      - Quer que eu me afaste para voc sentar do lado da Cris? perguntou ela.
      - No, no, assim est bom. Me passe a alguns marshmallows, o.k.?
      Pegou os docinhos e foi logo enfiando-os em seu "espeto".
      - Olhe a, gente, disse ele, o primeiro que conseguir tostar bem um marshmallow, todo por igual,  o vencedor.
      Imediatamente, Selena se ps a abrir um cabide. Em seguida pegou dois marshmallows, pronta a entrar no "concurso".
      - E o vencedor ganha o qu? quis saber Antnio.
      - A alegria de saber que  o vencedor, explicou Ted.
      - Vocs americanos so muito contemplativos, observou o italiano.
      - Voc quer dizer "competitivos", n? comentou Katie.
      - Ah, voc tambm j notou isso? falou o rapaz rindo para ela.
      De repente, pela primeira vez, Katie se deu conta de que ele tinha perfeito domnio de sua lngua, e estivera brincando com ela o tempo todo.
      - Ah, disse a jovem, voc estava s se divertindo s minhas custas, hein?
      - Claro. E acho que voc tambm se divertiu.
      - Eu me refiro  a essa sua confuso com as palavras, explicou a jovem. Voc estava confundindo o sentido dela s para...
      - Para chamar sua ateno. E parece que consegui, no foi?
      Katie no pde dar uma resposta imediata, pois nesse momento Douglas e Trcia chegaram abraados. O rapaz tinha na mo um violo e Trcia carregava uma sacola 
de plstico.
      - Mais marshmallow, pessoal! foi logo dizendo Douglas.
      Ted estendeu o brao na frente de Selena e pegou mais alguns marsmallows do pacote da Cris.
      - D licena! disse ele ao esticar a mo.
      E rapidamente, atirou dois docinhos contra Douglas, antes que este pudesse ver de onde eles estavam vindo.
      - Fique atrs de mim, Trcia! disse Douglas, colocando o violo  frente deles como se fosse um escudo. Eu a protegerei.
      -  gente, olha aqui! disse Selena, tirando seu "espeto" do fogo. Estou quase ganhando!
      Mais um pouco e os marshmallows dela estariam tostadinhos por igual. Agora vinha a tarefa mais difcil. Ela teria que assar a parte de baixo, que pendia do 
espeto, antes que esta derretesse e escorresse para o fogo.
      - , parece que vamos ter uma campe j, j, comentou Ted, voltando a estender seu espeto para o fogo. S que agora tem um concorrente.
      Cris, que estivera tostando seus marshmallows em silncio, tirou seu espeto do fogo.
      - Voc falou em concorrente? indagou ela.
      Contudo, assim que ela disse isso, seus docinhos, que estavam quase perfeitos, comearam a derreter e a pingar. No havia mais como "salv-los". Prontamente 
a jovem agarrou-os para lev-los a boca, com a massinha a escorrer-lhe pela mo. Nesse memento, ela arregalou os olhos e apontou para a fogueira. Selena virou-se 
e viu que suas duas perfeitas bolinhas doces estavam pegando fogo.
      - , mas no desisto no, disse ela. Vou tentar de novo. Algum me passe um marshmallow a, por favor.
      E durante meia hora a turma toda se empenhou em assar marshmallows. E assim foi at acabarem com todos os que Cris e Trcia haviam trazido. Vrios deles pegaram 
fogo e caram dentro da fogueira. No fim, a vencedora foi a Tnia, que conseguiu tostar os seus de maneira bem uniforme. Selena pensou que aquilo no deveria ser 
surpresa para ela. Sua irm tivera a pacincia de ficar ali diligentemente esperando. Alis, diligncia e pacincia eram duas virtudes dela, e Selena nunca se ders 
conta disso.
      - J chega de suspense, disse Cris afinal, virando-se para Douglas e Trcia. Quando ser o casamento? Marcaram a data?
      - Depois de um dia inteiro com minha me e a dela,  claro que marcamos, respondeu Douglas. Ser no dia 22 de agosto, e todos aqui esto convidados.
      - Em agosto, j? indagou Helen com voz de surpresa.
      -  a nica data, nas prximas frias, em que poderamos realizar a cerimnia, comentou ele. E se eu for mesmo continuar a estudar, a alternativa que teramos 
seria esperar at o ano que vem ou arranjar um dia apertado a, durante o recesso de Natal.
      - Uau! exclamou Ted. Que legal!
      - Acho que est perfeito, comentou Cris. Fico muito feliz por vocs. Estou at emocionada.
      - timo, interveio Trcia, porque quero lhe pedir um favor. Alis, eu e o Douglas queremos pedir a voc e ao Ted. Cris, eu gostaria muito que voc fosse minha 
dama de honra.*
      ___________________
      *Nos Estados Unidos, as "damas" da cerimnia de casamento no so crianas, mas as amigas da noiva. A "dama de honra" geralmente  a melhor amiga dela. O noivo 
tambm escolhe um amigo para ser o padrinho principal, que eles chamam de "best man", isto , melhor amigo. (N. da T.)
      
      - E voc, Ted, falou Douglas, vai ser meu principal padrinho, o.k.?
      - Espere a, espere a, disse Ted. O que vocs esto escolhendo a no so os colegas que participaro da pea teatral da escola no, gente.  o casamento 
de vocs. Vocs tm muitos parentes e amigos. Tm certeza de que querem mesmo que sejamos ns?
      - Claro, replicou Trcia. J conversamos bastante sobre isso.
      - Com a minha me e com a dela, acrescentou Douglas. Ento pode ficar tranqilo que nossa escolha j foi totalmente aprovada.
      - Fico muito honrado, observou Ted. Ento vou ser seu padrinho.
      - E eu vou adorar ser sua dama de honra, disse Cris.
      - Ainda no resolvemos quem sero as outras damas e padrinhos, mas vamos dar um jeito de colocar essa turma toda em nosso casamento. Mas quem no for dama 
ou padrinho, tem de ir assistir.
      - Ns no perderamos seu casamento por nada deste mundo, exclamou Helen.
      - Douglas, disse Ted, mexendo nas toras de lenha da fogueira e atirando para o alto uma poro de fagulhas, o que  que o padrinho faz?
      - No  o padrinho, principiou Larry, que seqestra o noivo na vspera do casamento e o pinta todo de roxo?
      - Espere a, interveio Douglas. No quero ser seqestrado no. Ted, voc que  meu padrinho tem de me proteger desse maluco do Larry.
      Selena no conseguia imaginar que algum pudesse controlar o Larry ou impedi-lo de fazer o que quisesse. Talvez a Gisele fosse capaz disso. Parecia que ela 
era o ponto fraco do rapaz.
      - Ah, mas a  que  legal. Nenhum noivo deseja ser seqestrado. Ento, considere-o como um presente nosso, em sua despedida de solteiro.
      - Sei no, comentou Douglas. Estou cada vez mais convencido de que minha idia de fugir com a noiva antes do casamento  melhor.
      - Puxa! exclamou Katie. Ainda no consigo acreditar que vocs dois vo se casar.
      - Pois pode acreditar, falou Douglas, porque vamos mesmo.
      Ele passou o brao em torno da namorada e puxou-a para bem junto de si. Ao claro da fogueira, o rosto da moa estava radiante de felicidade.
      Selena olhou para as brasas com um anseio. Bem no fundo do corao, comeou a desejar que um dia pudesse amar algum da mesma forma que Douglas e Trcia se 
amavam, e que o amor dela fosse to puro quanto o dos dois.
      
      
      
      
      
      
      Captulo Dezessete
      
      Na manh seguinte, quando todos se reuniram para o caf da manh, viram que tudo estava preparado na sala de jantar. O casal havia contratado um buffet para 
servir a refeio ao grupo, que se acomodou em torno da mesa.
      - No se espante, Selena, disse Katie, sentando-se ao lado da amiga. Isso  tpico da Marta. Tenho certeza de que  uma espcie de festa de boas-vindas para 
o Bob.
      - Est muito chique, no est? cochichou Selena para a outra.
      - Claro! Pra Marta, quanto mais vistoso melhor. Voc precisa ver como esta casa fica no Natal.
      Bob achava-se sentado  cabeceira. Parecia plido, mas sorria. O brao esquerdo estava todo enfaixado, e havia curativos tambm no pescoo e na orelha. Selena 
imaginou que ele devia estar sentindo muita dor. Com a ajuda de Marta, ele conseguira ficar bem apoiado na cadeira e tinha uma pose principesca, apesar do problema.
      Assim que a copeira serviu o suco de laranja nas taas de cristal, Bob pegou uma colherinha e bateu de leve na beirada da sua. Em seguida, ergueu-a como quem 
faz um brinde. Todos ficaram em silncio.
      - , acho que perdi a maior parte da "festa" dessa semana. Sinto muito. Acredito que eu era o que estava mais ansioso por ela.
      Um coro de risadas correu pela mesa.
      - Ah, mas este caf da manh est compensando tudo, comentou Larry, que se encontrava na outra ponta da mesa.
      Selena observou que o prato do rapaz estava cheio: panquecas com ovos e lingia. Gisele se achava  direita dele, mas no dela s havia algumas frutas e um 
bolinho. A garota se lebrou de uma historinha do livro de seu sobrinho sobre um homem chamado Jack e sua esposa. S que com eles se dava o contrrio.
      - Chamei vocs todos para virem aqui porque quero fazer uma comunicao. Pena que Margaret tenha ido embora, continuou Bob, olhando para Cris. Ento depois 
voc conta para seu pai e sua me o que vou dizer, est bem?
      A jovem fez que sim, com expresso muito sria. Selena ficou a imaginar se a notcia que ele iria dar tinha a ver com a herana da famlia. Teve a sensao 
de que estava participando de uma nova verso de um antigo filme de mistrio, de contexto medieval. S faltava todo mundo estar com roupas da poca, uma tempestade 
com muitos raios e troves e um candelabro de prata no mvel.
      Contudo a atmosfera no era essa. O sol matinal entrava pela janela, batendo na luminria do teto e nos cristais da mesa, criando pequeninos arco-ris por 
toda a parte. No centro havia um arranjo de flores com grandes gardnias brancas. O aroma delas, muito doce, sufocava um pouco os convidados.
      Sentado majestosamente  frente de todos, Bob falava com um tom de descontrao que combinava bem com a atmosfera alegre do ambiente. Ele pigarreou e prosseguiu.
      - O acidente que sofri dias atrs me fez pensar em minha vida com mais seriedade. Meditei muito sobre minha alma e tomei uma deciso. Isto , entendi que... 
no, senti que estava na hora de... e aqui a voz dele falhou, mas ele continuou: Quero dizer que...
      - Que voc se converteu! completou Katie intempestivamente.
      Todos olharam para Bob, esperando a confirmao. O tio de Cris deu um amplo sorriso.
      - Obrigado, Katie! Foi isso que aconteceu. Eu me converti.
      Foi um barulho geral. Cris, Ted, Katie e Douglas se levantaram feito um foguete, gritando e rindo ao mesmo tempo, e foram abraar Bob, procurando no machuc-lo. 
Marta ficou aflita, querendo impedir que eles encostassem no marido. Larry se levantou e se ps a bater palmas e a gritar como um torcedor num campo de futebol, 
quando seu time marca o gol da vitria. Trcia e Helen tambm entraram na fila para abraar Bob, enquanto Gisele e os outros batiam palmas e gritavam.
      Selena se ergueu de um salto e foi dar um abrao em Bob, embora ainda no tivesse muita intimidade com ele. Entendeu que Ted e Cris esperavam esse dia havia 
muito tempo, e partilhou da mesma emoo que eles. Sentiu que no podia deixar de participar de tudo aquilo.
      Lgrimas escorriam pelo rosto do tio de Cris. Era maravilhoso ver um homem chorando pelo fato de estar sendo recepcionado no reino de Deus. Quando Selena o 
abraou, num impulso de momento, resolveu dar-lhe um beijo na face. Sentiu nos lbios o gosto salgado das lgrimas dele.
      - Bem-vindo  famlia de Cristo! sussurrou a garota.
      - E agora o brinde, disse Larry com sua voz ressonante.
      E assim dizendo, o rapaz se ps de p, erguendo no ar sua taa de suco. Bob se esforou para se levantar tambm. Ted segurou-o por um brao, e Selena, pelo 
outro. Bob levantou seu copo tambm. Em seguida, fitando os convidados um por um diretamente nos olhos, exclamou:
      - Meus irmos em Cristo,  eternidade!
      Todos gritaram de alegria - todos, menos Marta.
      Ela ficara de p na hora certa, mas Selena notou que ela aproveitou a oportunidade para ir ao cmodo adjacente e das algumas orientaes  mulher que estava 
servindo o caf. Instantes depois, a copeira entrou com uma cesta cheia de bolinhos recm-assados e deu a volta pela mesa, oferecendo-os a todos. Ningum se serviu. 
Estavam todos ainda rindo e conversando. Bob sentou-se e se ps a relatar o que acontecera. Os homens que participavam do seu grupo de estudo bblico tinham ido 
visit-lo no hospital, um de cada vez.
      - Nenhum deles disse o que achei que iriam dizer. Apenas foram l, conversaram comigo e quase todos pediram para orar por mim. Mas eu pensava constantemente 
nas coisas que o Ted vem falando comigo nesses ltimos anos, isto , que precisamos nos arrepender, entregar a vida a Cristo e pedir a ele que nos salve. Antes, 
eu nunca havia pensado que precisava de um Salvador. Mas quando a vida da gente fica por um fio,  hora de parar de acreditar na sorte e comear a ter esperanas 
de que realmente exista um Salvador.
      - Ah, existe sim! exclamou Cris, com os olhos marejados de lgrimas. E o senhor o encontrou, tio Bob.
      - Na realidade, acho que foi ele que me encontrou.
      - E no precisou muito para que o senhor voltasse toda a sua ateno para ele, no  mesmo? comentou Douglas, rindo.
      Bob virou sua taa ligeiramente na direo do rapaz.
      - Sabe, disse ele, ontem  noite, tentei explicar tudo isso para Marta, mas no consegui colocar em palavras, continuou, dando um olhar terno para a esposa.
      A expresso do rosto dela era fria, embora com um sorriso forado.
      - No sei explicar direito o que se passou comigo, mas por dentro estou diferente, concluiu Bob.
      Nesse momento, a campainha da porta tocou, e o Douglas, que era o mais prximo, foi abrir. Instantes depois estava de volta  sala de jantar, carregando trs 
malas grandes.
      - Tnia, o mistrio da bagagem perdida foi solucionado.
      - Ah, timo! disse a jovem. Vou pegar o avio de volta para casa dentro de duas horas, e s agora eles devolvem minhas malas.
      Douglas levou as malas de volta para perto da porta de entrada. Selena notou que Ted fitara Cris e logo depois olhou para Bob. Inclinou-se um pouco na direo 
do tio de Cris e disse sorrindo:
      - O que estava perdido foi achado.
      Cris tambm deu um sorriso de felicidade, como o de Ted, olhando para o tio. Sem dizer nada, Bob ergueu sua taa, tocando de leve na de Ted e depois na de 
Cris.
      - O que estava perdido, agora foi achado, repetiu ele.
      Selena compreendeu que no era exatamente  bagagem de Tnia que eles se referiam.
      Captulo Dezoito
      
      No domingo de Pscoa,  hora do culto, Selena sentou-se ao lado de V May. Estavam na antiga igreja da av. A frente do salo achava-se toda enfeitada com 
lrios brancos. O perfume forte das flores lembrava a primavera, o comeo da vida e o milagre da ressurreio do Senhor.
      Selena sentia o corao cheio de gozo. Na semana anterior tinha vivido tantas experincias, e tudo parecia convergir para esse dia em que se comemorava a vitria 
de Cristo sobre a morte. Quando se levantaram para cantar o hino de encerramento, Selena ajudou a av a erguer-se e, juntamente com ela, cantou de todo o corao: 
"Cristo j ressuscitou, aleluia!"
      E o dia inteiro ela se sentiu como que envolta num clido claro, ainda associado s alegrias que experimentara no rccesso de Pscoa e na beleza daquele culto 
matutino. Com disposio alegre, ajudou a me a pr a mesa para o almoo, que hoje seria muito especial. Toda a famlia estaria presente. Wesley, o irmo mais velho 
que estudava em Corvallis, tinha vindo para casa. Tambm estavam ali o Cody, seu outro irmo, a Katrina, sua esposa, e o Tyler, filhinho deles, de trs anos.
      Assim que todos se acomodaram em seus lugares  mesa, o pai de Selena se levantou e orou. Imediatamente aps ele haver se sentado, a garota se ps de p e 
ergueu seu copo de gua.
      - Eu queria fazer um brinde, disse.
      - Desde quando comeamos a fazer brindes em nossa famlia? quis saber Wesley.
      - Desde que sua irm esteve na casa de um certo tio Bob, muito rico, que mora em Newport Beach, explicou Tnia.
      - Gostaria de agradecer a Deus por meus familiares, porque todos so crentes, disse a garota. No quero nunca deixar de sentir o quanto vocs so importantes. 
Um brinde  eternidade!
      A reao da famlia no foi igual  do pessoal que participara do caf da manh na casa de Bob e Marta, nem to imediata. Contudo V May foi a primeira a concordar. 
Ela ergueu seu copo na direo da neta e disse:
      -  eternidade!
      Na segunda-feira, quando Selena voltou  escola, ainda estava com a mesma disposio alegre. A primeira pessoa que avistou no estacionamento, ao chegar, foi 
Amy.
      - Isso no  justo! exclamou a colega, colocando o brao ao lado do de Selena para comparar. Olhe s! Voc est queimadinha de praia!
      - Bom, isso  o que acontece quando a gente passa dias seguidos deitada numa praia da Califrnia, explicou Selena, gostando da ateno recebida.
      - Ah, pode me contar tudo, pediu Amy. O recesso, pra mim, se resumiu em duas palavras: sem graa.
      - Voc tem alguma coisa pra fazer depois da aula? indagou Selena. Preciso comprar um vestido novo.
      Ela sabia que seria timo se Amy pudesse ir com ela fazer a compra, pois as duas tinham gosto bem parecido. Selena nunca conhecera ningum que gostasse do 
mesmo tipo de roupa de que ela gostava. Amy fora a primeira.
      - U, voc tambm? perguntou a colega, enquanto as duas atravessavam o estacionamento. Na semana passada, sa com a Vicki trs vezes. Ela queria comprar uma 
roupa que fosse mais ou menos formal. Voc sabe, n, que ela convidou o Ronny para ir com ela a um jantar beneficente que vai haver na sexta-feira. No sei se lhe 
contei isso antes de voc viajar.
      Selena parou perto da ltima fileira de carros estacionados. Seu corao batia forte.
      - Ela pediu o Ronny pra ir com ela?
      Amy parou tambm, acenando que sim.
      - O coitado est to nervoso, continuou Amy. A semana passada ele tambm me pediu para ir comprar a roupa com ele. Afinal consegui convenc-lo a alugar um 
smoking. Voc precisava v-lo vestido com aquilo. Ficou to bonitinho! Parecendo um garom! Mas eu no disse isso pra ele, no, comentou olhando atentamente para 
a amiga. O que foi? Por que ficou plida?
      - Estou muito espantada, s isso.
      - Pensei que o Ronny tinha lhe contado. Ele no foi pedir um conselho a voc sobre as flores para o ramalhete?
      - Foi, respondeu Selena, afinal conseguindo recobrar a voz e se sentindo uma idiota. Ele foi sim. Foi l no meu trabalho um dia antes de eu viajar e me perguntou 
sobre as flores.
      Nesse momento, Amy fez uma expresso de quem havia entendido tudo.
      - Ah, Selena, voc no achou que ele a estava convidando, achou?
      A garota mordeu o lbio inferior e fechou um pouco os olhos para reprimir algumas lgrimas que brotavam deles. Elas iriam revelar seu sentimento. Ademais estava 
muda; no conseguia falar.
      - Ah, no! exclamou Amy, encostando-se a um carro prximo.
      O estacionamento agora estava cheio de veculos e dezenas de estudantes passavam por elas, caminhando em direo ao prdio de aulas.
      -  isso mesmo! continuou Amy. Aquele dia, l no parque das guas, ele fez muito mistrio, quando disse que iria passar no Mother Bear para lhe perguntar uma 
coisa, no fez?
      A essa altura, Selena j se recobrara do espanto e segurou a colega pelo brao, aproximou-se mais dela e disse:
      - Amy, promete que no vai contar nada para o Ronny, nem para a Vicki, nem para ningum, o.k.?
      Amy ficou espantada diante do repentino e enftico pedido de Selena.
      - Promete, repetiu a garota em voz baixa. Se o Ronny soubesse, eu morreria de vergonha. Ele merece divertir-se nesse jantar e, alm disso, no quero dar impresses 
falsas, 't bem? Foi s um ridculo mal-entendido. Promete que no vai contar nada?
      - Prometo, respondeu Amy muito sria. Pode confiar em mim. Sei guardar segredo.
      - timo! exclamou Selena, soltando o brao dela.
      Nesse momento, a sineta tocou, e as duas saram correndo para a primeira aula.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Dezenove
      
      Afinal a semana se passou, e Selena no teve nenhum encontro constrangedor com Ronny. Alis, o rapaz parecia estar com toda a ateno voltada para Vicki. Ao 
que parecia, Amy guardara o segredo de Selena, e esta sentiu que deveria ser leal para com a colega e valorizar mais a amizade dela. E a outra tambm parecia estar 
interessada em cultivar mais a amizade, pois convidou Selena para irem jantar no restaurante italiano de seu tio, que ficava no centro da cidade, na sexta-feira 
 noite.
      - S ns duas, disse Amy.
      - Quer dizer que vamos deixar os cachorros em casa? perguntou Selena.
      - Voc est falando do Brutus e do Snoopy?
      - Claro, de quem mais eu poderia estar falando?
      - Ah, nada. , est certo. Eles no deixam cachorro entrar no restaurante. Ah, e ele disse que nosso jantar hoje  por conta da casa. Fiz as reservas para 
as 8:00h; e vou peg-la em casa, o.k.?
      Selena concordou e expressou o quanto apreciava aquele convite da amiga.
      - Tudo bem, comentou Amy. Eu ia convid-la mesmo que no tivesse havido aquele mal-entendido com o Ronny. Passo l por volta de 7:30h, 't bom?
      Antes dessa hora Selena j se achava pronta. O ar do entardecer estava carregado de aromas de flores das rvores que rodeavam a casa. Selena foi sentar-se 
na varanda, que tomava toda a fachada da moradia. O balano branco parecia dizer: Venha sentar-se aqui e balanar comigo, nessa brisa noturna! A garota atendeu ao 
chamado, acomodando-se na almofada espessa que sua me fizera enquanto ela estivera fora. Sobre a mureta, havia alguns vasos de planta novos, com petnias, prmulas 
e amor-perfeito. A sua me gostava daquelas flores; eram as suas prediletas.
      Balanando para diante e para trs, Selena respirou fundo, absorvendo o ar adocicado  sua volta. Dois esquilos passaram ali, saltando pelo fio telefnico. 
E em seguida um tordo bem grado pousou no jardim e ficou saltitando por ali,  procura de comida.
      Por que ser que estou me sentindo to... Que sensao  essa afinal? Estou feliz? Tranqila? Estou feliz e j adaptada  vida em Portland.  isso a, pensou 
Selena. No, a melhor palavra  "contentamento". Como  mesmo aquele verso que a Cris falou a semana passada? "A piedade com contentamento  grande fonte de lucro." 
 isso que estou sentindo. Estou contente.
      Selena percebeu que "lucrara" bastante, pois conseguira superar muita coisa. Fora timo passar aquela semana com a turma da Califrnia, mas agora reconhecia 
que precisava procurar amigos ali onde morava. Tinha que se relacionar com jovens da sua idade, que estivessem enfrentando problemas iguais aos dela, ainda que esses 
problemas fossem uns mal-entendidos bobos, sobre ramalhetes e encontros. Queria crescer devagar, sem pressa, e acolher tudo que lhe sobreviesse de bom e de ruim.
      Mais que nunca, tinha certeza de que Deus estava com a mo em sua vida, operando tudo da maneira como Ele havia planejado. Deu um impulso com os ps, no piso 
de madeira, e passou a balanar com um ritmo mais constante, mais por igual, lembrando o tique-taque de um relgio.
      E os pensamentos tambm foram como que "tiquetaqueando" em sua cabea. Confiando firmemente em Deus, seria mais fcil vencer os cimes e a inveja que tinha 
de Tnia, ou de Vicki, ou de qualquer outro conhecido. Por que iria desejar algo que pertencia a outra pessoa, se no era aquilo que Deus queria para ela e, portanto, 
no era o melhor? Deus sabia o que era melhor. Ele  fiel e assim iria realizar aquilo que havia planejado para sua vida. Naquele momento, desejou ardentemente passar 
a "andar" dentro desse plano. No iria mais resistir a ele, nem impedir de forma alguma a sua realizao.
      E sentindo-se embalada por esses pensamentos agradveis ao mover do balano, notou que um carro parara em frente da casa. Percebeu que no era o da Amy. Espiou 
entre os vasps de flores que estavam na mureta e viu entrar pela rampa um rapaz vestido de smoking, que trazia algo numa das mos.
      Ronny?
      - Oi! disse a garota assim que ele chegou  varanda.
      O rapaz pareceu assustar-se.
      - Oh! Oi! No vi voc a no, disse ele, aproximando-se mais dela.
      - Puxa! Voc est maravilhoso! exclamou a garota, dando um sorriso amplo.
      - Obrigado! Estou me sentindo como um pingim!
      Selena riu.
      - Mas no est parecendo pingim no.
      - Tome, disse ele, estendendo-lhe um boto de rosa cor-de-pssego, envolto num papel celofane. Resolvi trazer isto aqui para voc.  para lhe agradecer pela 
sugesto que voc me deu sobre o ramalhete.
      - Ah, no precisava se incomodar no, replicou Selena, pegando a flor e aspirando o perfume dela.
      - , mas eu quis trazer. Voc  uma excelente amiga, Selena. Gosto muito de voc.
      A garota sentiu o rosto avermelhar-se ao ouvir aquilo.
      - Obrigada, Ronny, disse.
      - Bom, disse ele, soltando um suspiro profundo, tenho de ir.
      - Espere a, falou Selena, levantando-se e indo em direo a ele.
      Ronny pareceu ficar ainda mais nervoso vendo-a aproximar-se.
      - No  nada no, Ronny, explicou ela. S quero consertar sua gravata. Fique parado.
      Ela segurou a ponta direita da gravata e remexeu com ela um pouco. Afinal os dois lados ficaram iguais.
      - Pronto. Agora est certinha.
      Selena notou duas gotas de suor que escorriam das tmporas dele para o rosto.
      - Calma! falou ela, sorrindo. Voc est timo e tenho certeza de que vai passar momentos maravilhosos.
      Nesse momento, a porta da sala se abriu e Tnia apareceu ali, tendo na mo o telefone sem fio.
      - J encontrei Selena, Jeremy, disse a jovem. Ela est na varanda da sala com o... Ronny?
      O rapaz ergueu a mo num cumprimento formal.
      - Eu j estava de sada, informou ele.
      - Puxa! Voc est fabuloso! exclamou Tnia.
      Em seguida, voltou a ateno para o telefone e disse:
      -  um dos amigos de Selena que est aqui, todo arrumado para ums festa de formatura ou algo assim.
      "Te vejo depois!" sussurrou Ronny para a colega apenas com os lbios e, com um aceno rpido, desceu correndo a escadinha da entrada e foi para o carro.
      - Obrigada pela flor! gritou a garota.
      Tnia estendeu-lhe o telefone, dizendo:
      - Tome. Ele quer conversar com voc. No entendi o que o Jeremy falou sobre voc. Disse que pensou que voc sabia.
      - Sabia do qu?
      Tnia colocou o aparelho na mo de Selena, que o chegou ao ouvido.
      - Oi, Jeremy! O que houve?
      - Ganhando flores, hein? comentou o rapaz. Talvez meu irmo no saiba que est com um concorrente srio.
      Selena olhou para a irm como quem no entendera. Tnia ergueu as mos e disse:
      - Falei com ele que no sabia de nada.
      - Quer fazer o favor de "voltar a fita" um pouquinho, pediu a garota. O que  que voc e a Tnia estavam conversando?
      - Ela lhe contou que estou pensando em ir a daqui a algumas semanas?
      - No, ainda no. Que bom! Tenho certeza de que voc vai gostar de conhecer nossa famlia.
      - Pois , e eu tambm estava com esperana de que vocs conhecessem uma pessoa da minha, mas ele me disse que voc j o conhece.
      - Quem? perguntou Selena, segurando o telefone com a outra mo.
      Colocou a rosa no balano e deu de ombros para Tnia.
      - Lembra de uma carta que Katie mandou pra voc um tempo atrs? indagou Jeremy. Foi meu irmo que me deu essa carta, que eu entreguei para Katie. Esse foi 
o nico jeito que ele encontrou para entrar em contato com voc. Os dois se conheceram no aeroporto de Londres.
      - Paul!?
      Selena teve a sensao de que uma fora invisvel a empurrara, atirando-a contra uma das pilastras da varanda.
      - Voc  irmo de Paul? indagou ela.
      - Ele tambm ficou muito espantado quando entendeu isso. Falei sobre Tnia e em seguida mencionei que ela tem uma irm chamada Selena.
      - E o que foi que ele disse? quis saber a garota.
      - Compreendeu que s poderia ser voc, e me contou a histria toda. Contou que voc emprestou dinheiro pra ele em Londres, no telefone pblico. Depois que 
sentou ao seu lado no avio, no vo para Portland; que pensou que sua mala era a dele. E depois disse que se referiu a voc como a "princesa dos lrios" e mencionou 
que voc lhe escreveu uma carta, dizendo que ele no estava sendo sincero.
      Selena fechou os olhos e, pela centsima vez, arrependeu-se de ter mandado aquela carta de modo to impulsivo. Se havia uma lio que queria muito aprender 
era ficar de boca fechada. No caso a, seria guardar os pensamentos s para ela, e no ir logo escrevendo tudo.
      - Aquilo foi... na verdade eu no... no estava... replicou ela, procurando as palavras certas para explicar. Foi uma espcie de mal-entendido. Afinal, ele 
at levou flores para minha av. E ainda nem tive chance de lhe agradecer. Quer fazer o favor de agradecer-lhe por mim?
      - Claro. Mais alguma coisa que voc quer que eu lhe diga? J lhe contei que a vi surfando na semana passada. E ele no ficou nem um pouco espantado.
      - U, e por que deveria ficar espantado? inquiriu Selena.
      - Tem razo, disse o rapaz. Eu no deveria me admirar com nada que diga respeito a voc ou sua irm.
      - E quanto ao seu irmo? quis saber Selena. Ser que ele vai fazer algo que pode me deixar espantada?
      - Como assim?
      - Ele no est mais namorando a Jalene, est?
      - No, eles terminaram poucos meses atrs. Alis, pelo que sei, voc teve uma parcela de responsabilidade nisso. Pelo menos  o que Paul e minha me deixam 
transparecer. , Selena, voc est se tornando uma pessoa importante em nossa famlia.
      A garota teve vontade de dar risada, mas conteve-se. Ela achara que havia tempo que Paul se esquecera dela e do que tinham conversado no avio, e na verdade 
ele at falara dela com os pais.
      - Ento diz pra ele que mandei um abrao.
      - O.k. Mais alguma coisa? indagou o rapaz.
      - Diz que a piedade com contentamento  grande fonte de lucro.
      - O qu?
      - Ah, deixe pra l, respondeu Selena, ao ver uma expresso de estranheza estampar-se no rosto de Tnia. Diz que espero que ele esteja bem.
      - Est bom. Vou dizer. Ah, e quando eu for a, talvez ns quatro possamos fazer um programa juntos. E agora, voc pode passar o fone de novo para a Tnia, 
por favor?
      Selena devolveu o aparelho para a irm, que cobriu o bocal com uma das mos e disse:
      - Continuo no entendendo.
      - Depois eu lhe explico, prometeu Selena.
      A garota voltou a acomodar-se na almofada do balano e aspirou o perfume da rosa. Movendo-se suavemente ao sabor da gangorra, que parecia marcar os segundos 
como um relgio, Selena sentiu um desejo irreprimvel de sorrir. A mente girava a mil por hora, s de pensar nas maravilhosas possibilidades, de romance e sonho, 
que o futuro reservava para ela. Por fim, como que numa prece, sussurrou baixinho para Aquele que j sabia no que ela estava pensando:
      - Ah, quem me dera!
      
      
      Fim



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